Desconfia

Por Gabriela Brito*


Foto: Flávia Ulhôa
   Acho cômico o descaso com que tratamos a boa e velha pergunta “o que você quer ser quando crescer?”, quando na verdade são poucos os que têm a resposta na ponta da língua. Quando se é criança, basta parar por alguns minutos e eleger aquilo que mais te proporciona prazer e pronto, eis a resposta. Futebol? Jogador profissional. Comer? Chef de cozinha. Ver filme? Diretor. A coisa vai se tornando lenta e imperceptivelmente, mais complexa à medida que os anos correm e esse organismo estranho a que chamam de “sociedade” começa a lhe impor uma outra coisa estranha chamada “necessidade”. “O que você quer ser vira “profissão” e “carreira”, e seus gostos deixam de ser só gostos e passam a ser determinantes que te auxiliam na escolha profissional.
     Ao ouvir essas palavras, faça uma pausa, respire fundo e saiba: você cresceu e virou adulto. Como a necessidade é a mãe da invenção, mil e uma possibilidades se desdobram à sua frente. Gosta de futebol? Claro, jogador profissional é uma ideia, mas por que não talvez ser técnico? Comer é a sua praia? Chef de cozinha é legal, mas já pensou em ser crítico de comida? Gosta de filmes, não é? Diretor é muito comum, já pensou em ser produtor? Fotógrafo? Diretor de arte? Cinegrafista? Reparem só na quantidade de pontos de interrogação feitos em questão de segundos. O problema é que nossa cabeça nem sempre acompanha a proliferação de interrogações, e,não raro, acabamos com um leve descompasso no peito e uma angústia para descobrir logo essa tal de profissão que supra nossas necessidades sem, é claro, esquecermos dos nossos gostos.
     Quando me perguntam por que escolhi estudar jornalismo, esse monólogo que acabaram de ler não chega nem perto da enxurrada de interrogações que assolam minha mente. Assim como Guimarães Rosa, “eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa.” O pouco que sei é que eu me enxergo parte de projetos culturais os mais diversos: seja participando de um ensaio fotográfico sobre a decadência de mulheres que sucumbiram às drogas e hoje vivem à sombra do que poderiam ter sido (Projeto Downtown Divas); seja me propondo a fazer uma longa peregrinação em busca das origens de um produto banal como, sei lá, a pasta de dente; seja cobrindo assunto sério, como a corrupção; seja esquadrinhando os cantos do Brasil e do mundo em busca de exposições de arte; seja criando vergonha na cara (ou melhor, me livrando dela) e divulgando meus textos para o mundo ler e opinar sobre; seja para descobrir que na verdade não é nada disso, e que o meu destino é me mudar para uma ilha com um gato e um amor do lado, me enfurnar em uma casa de madeira e escrever um livro que se transformará em um roteiro de sucesso e que, por fim, me alçará à fama inesperada. Eu quase que nada sei, mas sei que o que eu quero é ser o canal, a voz e até a mão que deu uma ajuda em projetos estranhos que de alguma forma deixaram uma marca. Eu quase que nada sei, mas desconfio de muita coisa. E eu desconfio que o jornalismo possa me proporcionar isso.

*Estudante da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação da UnB, 2ºSemestre/2015.




Postar um comentário