“O cidadão que é o meu patrão”, diz Fernando Fraga, chefe de reportagem da Agência Brasil.

Por Daniel Marques Vieira e Rafael Marques Milhomens Tzu*


Fernando Fraga é jornalista formado pela faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, e atualmente atua como chefe de reportagem na Agência Brasil, subsidiária da Empresa Brasil de Comunicação (a EBC), estatal que possui em um de seus ramos é a conhecida TV Brasil. Em entrevista aos alunos da UnB, Fernando fala sobre a carreira jornalística, os contrastes entre o cenário há 30 anos e o atual, o trabalho na estatal e sobre os desafios da profissão.

Foto: Rafael Tzu
Primeiro algumas informações básicas sobre o senhor. Como você chegou ao jornalismo e qual é o papel que o senhor desempenha?

Meu nome é Fernando fraga, eu sou atual chefe de reportagem da agência Brasil e já tenho 37 anos de profissão, me formei no rio de janeiro na faculdade Hélio Alonso. O que me levou ao jornalismo foi o colunista Carlos Castelo Branco que tinha uma coluna no jornal do brasil, e foi o maior colunista político que esse país já teve. Eu era apaixonado pelo que ele escrevia, mas eu me dedicava a engenharia. Eu estudei para fazer vestibular para engenharia. Fiz, passei, cheguei a fazer 1 ano e meio, mas o “calculo 2” me derrubou ... E eu me interessei e falei: “acho que jornalismo é o caminho”. Passei e vivo a vida dedicada ao jornalismo até então.

Qual é a sua trajetória profissional até chegar na empresa atual?

Quando eu me formei, eu estagiei n'O Globo, estagiei num jornal que não existe mais no rio de janeiro chamado “O Dia”, que era um jornal popular tipo “Extra”, um jornal que se dedicava mais a parte policial, cidade, no rio de janeiro. Era uma escola, e hoje essa escola anda meio sumida, onde você aprende a perguntar, aprende os primeiros passos do jornalismo, aí fiz estágio lá e tal… Mas o rio na época, 1978, tava muito difícil o emprego, e eu já havia morado em Brasília, e resolvi vir pra cá. Me mudei pra Brasília em 79 e consegui emprego aqui no jornal de Brasília, depois no Correio Braziliense, e vim pra EBC, que naquela época se chamava “Empresa Brasileira de Notícias” e se transformou em Radiobrás e hoje é Empresa Brasil de Comunicação, mas também trabalhei em outros lugares, trabalhei na Folha de S. Paulo, trabalhei na Universidade de Brasília na assessoria do Cristóvão quando ele foi Reitor. Trabalhei em vários lugares, estiver em palmas e fiz um jornal em palmas, mas meu porto seguro sempre foi a Agência Brasil.

É comum ouvir de jornalistas que já estão na área que eles passaram por muitos lugares durante a carreira, a que fator isso se deve?

A nossa rotatividade é grande. Você começa fazendo editoria de cidade, esporte e tal, aí por você se interessa por outro assunto, por política, e economia, e conforme você vai ganhando experiência, outros jornais vão se interessando por você e então compram o seu passe. ou você muda, briga... Hoje o jornalismo está um pouco mais calmo, mas na minha época a mudança era maior.

Mais calmo?

Mais calmo sim. Primeiro que tem poucas vagas. No meu tempo se eu era um bom cara que, por exemplo, trabalhava para O Globo e a Folha pagava mais então você ia pra lá. Era uma rotatividade nesses termos. Haviam questões salariais, haviam questões de você fazer um trabalho que você se identifica melhor. O jornalismo tem dessas coisas que eu não sei se em outras profissões tem essa rotatividade. Mas no meu tempo no jornalismo a gente mudava mais.

O senhor acha que com o passar do tempo isso tem diminuído?

Eu vejo que sim. Essas mudanças não são mais tão constantes assim. Hoje um jornalista consegue ficar cinco ou seis anos em um jornal. Antes eles não ficavam anos. Até mesmo por que queria mudar. O cara tava no jornal e queria fazer revista… Hoje tem muito essa parte das redes sociais, blogs, tudo… Antes a gente ou fazia jornal impresso, ou rádio, ou assessoria.

Qual a diferença entre trabalhar em uma empresa privada e uma empresa pública como a EBC?

A empresa privada é dependente do anunciante. Não que isso possa interferir muito, mas as vezes pode interferir. Se uma grande indústria é uma grande anunciante e tem algo referente a ela, às vezes pode ficar um pouco complicado você fazer denuncias. Mas não é isso. O jornalismo dos grandes jornais tem focos e interesses muito mais com o dia-a-dia da economia, da política… Já nós aqui da Agência Brasil, por ser público, focamos mais no cidadão. Ele que me paga. O cidadão que é o meu patrão, então eu tenho que trabalhar pra ele. No setor privado o patrão dele é o jornal, então ele trabalha pro dono do jornal. Aí cada um tem sua linha editorial, suas preferências políticas e econômicas. Mas o jornalista tem que pautar em uma coisa, seja público ou privado: ética. Ele tem que ouvir os dois lados. Tem que ser ético. Ele não pode ser vendido. Ele não pode fazer porque ganha mais ou ganha menos. Se ele se sentir incomodado ele pede e vai embora.

Falando sobre ganhar mais ou menos: é verdade que o jornalista ganha pouco?

Essa é aquela história do copo meio cheio ou meio vazio, né? Alguns acham que o copo ta mais vazio e outros acham que o copo ta mais cheio. Depende do mercado. Tem época que o mercado ta mais favorável e você ganha bons salários, e tem épocas como agora, meio em crise, que você tem demissões e não tão oferecendo tanto. Demitem alguém com o salário de quinze mil e contratam dois de sete. Acho que toda profissão tem disso. Você vai desenvolvendo seu trabalho e o dinheiro vem como consequência de seu trabalho. Acho que não tem que pensar “vou ser jornalista pra ganhar muito dinheiro”, ou “vou ser juiz pra ganhar muito dinheiro”. Tem que ser “vou ser juiz por que eu gosto, por que é uma profissão que eu vou servir ao cidadão, servir ao meu país.” O jornalista é do mesmo jeito.

Talvez um engenheiro em início de carreira possa ganhar mais do que eu. Confesso que hoje eu não sei. Acho que com o tempo você vai ganhando um salário razoável que dá pra criar seus filhos, ter uma casa…

Então o salário não é uma preocupação tão pertinente?

A mim não. A minha preocupação nunca foi ganhar dinheiro. Acho que eu preciso de dinheiro para viver bem, pra comer, pra escola e essas coisas. Mas eu não me preocupo com isso não.
Se você é recém-formado com certeza vai “ralar”. É uma profissão que no início não tem uma base. Eu acho que o salário base de jornalista pelo sindicado é de dois mil. Mas depende. Eu com trinta anos de produção dois mil é pouco, agora pra quem ta começando, se você é solteiro. Na verdade todo mundo reclama que ganha pouco. Ninguém acha que ganha muito.

Se o senhor tivesse algo a dizer àqueles universitários que ainda estão com dúvidas, o que seria?

É aquele negócio que eu falei. Pra ser jornalista, médico, engenheiro você tem que gostar do que ta fazendo. Você tem que se dedicar àquilo ali, ler bastante, se atualizar. E claro: ser ético. Seja engenheiro ou jornalista.
É uma profissão sacrificante. Você não tem hora ou dia. Não tem sábado ou domingo. Com o tempo se você quer aquilo de repente você tem que ir lá pro interior do Mato Grosso, por uma questão indígena. Você não sabe se vai dormir bem ou se não vai. O jornalismo não tem ponto ou horário certo. Você entra às oito, por exemplo e não sabe que horas que vai sair.

Essa vida é como o senhor imaginava quando estava ainda cursando?

No meu tempo era muito mais complicado porque as regras sindicais não eram tão organizadas como hoje. Hoje você tem um sindicato mais ativo. A gente não tinha isso. A gente trabalhava doze a catorze horas direto.
Mas é aquele negócio. Depende do emprego que você vai ter. Onde você está empregado. Porque tem gente que se forma e quer ser assessor de imprensa, então vai ter rotina, vai ter horário pra chegar, horário pra reunião com o chefe, pra falar com imprensa. Mas o jornalismo do dia-a-dia o cara chega no congresso 10 horas da manhã em um dia que tem votação e não deve sair antes de meia noite. E se tiver sorte ele almoça.
Notícia não tem hora pra acontecer, né? Você não tem hora marcada. O médico sabe a hora que vai fazer a cirurgia dele, sabe a hora que vai receber o paciente. Jornalista não sabe a hora que o avião vai cair, ou que horas a ministra vai dar uma declaração, não sabe a hora em que a economia vai se movimentar. Você tem que estar na disposição.

Parte da crise do jornalismo se deve além da crise econômica também à crise do digital. Você acha que o digital afeta muito o trabalho do jornalista? Há saída pro jornalista além do digital?

Eu não sou um estudioso desse tema, mas não acho que o jornal de papel vá acabar, assim como o livro não vai acabar. Por mais geringonças eletrônicas que existam o “tesão” está em você pegar o jornal e você abrir e ler, você pegar um livro e ler. Eu acho que tem espaço pra todo mundo. Aí é uma questão empresarial. Se o dono de um jornal acha que ele pode ter uma redação com menos gente por que esse jornalista pode atuar, editar, ter um blog, cuidar do twitter, olhar o Facebook, fazer dez coisas ao mesmo tempo… tudo bem. Mas você tem que ter uma pessoa pra cada coisa. Não é possível um cara ao mesmo tempo publicar no twitter e escrever uma matéria de economia e ir lá na rua fazer um entrevsita. Vai ter mais pessoas. Alguém pra mecher no twitter, alguém pra fotografar. Já se tentou varias vezes isso [juntar as funções]. Já se tentou “o próprio jornalista fotografa”. É difícil. A não ser que o cara seja um correspondente em algum lugar. Aí é com ele. Se ele é um frelancer aí ele faz tudo e vai vender a matéria. O freelancer faz isso. O cara ta lá na Hungria pra ver os refugiados e tá com a maquina dele pra tirar a foto e fazer a matéria.

Como funciona o freelancer dentro do jornalismo? Eu posso simplesmente fazer apurar um acontecimento e vender?

Se alguém quiser comprar sua matéria. Você é um jornalista registrado que pode fazer isso, tem um bom texto e uma boa história, porque a revista “rolling stones” não iria comprar? Ou o Jornal O Globo não pode comprar? Depende da política do jornal.

Qual é o método que jornalista deve seguir para vender sua matéria como freelancer? Basta chegar no veículo e oferecer?

Se for um assunto bom. Se ele tiver interesse em publicar. Agora tem que ser uma coisa boa, novidade, de interesse público. Tem vários correspondentes pelo mundo, nessas crises de guerra, que são “freela”. Se arrisca e até às vezes se faz um contrato de freela “fixo”. Eu nunca fui freela, apesar de já ter feito um freela para um jornal ou uma revista.

Qual foi a maior dificuldade que o senho enfrentou no jornalismo?

O dia-a-dia é a maior dificuldade. Tem dia que você está bem, tem dia que você está mal. E eu acho que a maior dificuldade de todo trabalhador é o medo do desemprego. Um trabalhador, seja ele quem for, tem medo disso. “Poxa! Posso estar desempregado a qualquer momento.” Tenho uns amigos que falam assim: “Nós jornalistas nós estamos sempre demitidos.” Na nossa profissão nós estamos sempre demitidos. A qualquer momento, a qualquer hora a gente ta sempre demitido. Então o jornalista tem que estar preparado pra isso. No geral todas as dificuldades são do dia-a-dia. Acho que se você faz o que você gosta você supera as coisas.



*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2º Semestre/2015.

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