“O jornalismo sempre esteve em crise”

A jornalista Raquel Morais, graduada pela UnB, trabalha no G1 DF desde 2012, quando foi efetivada após um estágio. Raquel falou da sua percepção do mercado de trabalho na atualidade, as principais mudanças do jornalismo, sobre a apuração da notícia no jornalismo online, da falta de rotina na profissão e as perspectivas para o futuro.
Por Felipe Moura e Pedro Henrique Gomes*



Conte um pouco mais sobre você e o que faz ...
Tenho 25 anos e minha experiência profissional praticamente se restringe ao G1 DF. Entrei como estagiária, em 13 de maio de 2011, e fui efetivada em 18 de dezembro de 2012. Diferentemente do que propõe o programa de estágio da Globo, não passei por nenhuma outra área – desde o início meu chefe simpatizou com meu trabalho e quis me contratar. Isso é muito bom, mas também tem um lado ruim, já que não pude conhecer outros setores. Mas, de qualquer forma, posso dizer que sou bastante feliz. Sou exatamente o que “gostaria de ser quando crescesse”, sabe? Escrevo. E para o maior portal do país.
Sobre o dia a dia no trabalho: faço edição, pauta e reportagem. Oficialmente há meu chefe e seis repórteres, mas na prática é como se eu fosse a subeditora pela manhã. Trabalho de 6h às 14h (na teoria, porque hoje, por exemplo, mesmo sendo bem mais tarde ainda estou trabalhando). Nesse horário, somos eu, uma estagiária e duas repórteres. Entro antes de todo mundo, atualizo a página (chamando as matérias novas etc.), escrevo notinhas, distribuo as pautas factuais (além de já ter enviado por e-mail as especiais para aquele dia), edito o que aparece, fico em contato por telefone e chat com o pessoal de SP (onde fica a “chefia”/”sede” do G1), negocio chamadas com o pessoal da TV, resolvo pepinos com assessores e faço reportagens especiais. É bastante coisa mesmo e é bem cansativo, mas eu sou extremamente agitada/neurótica/elétrica, então faz parte do meu perfil. Aliás, eu estou na função justamente por isso, porque tenho esse perfil. As outras pessoas produzem menos, são menos ágeis etc.
Qual a sua percepção do mercado de trabalho no momento?
Eu nunca tive outro emprego e, antes da Globo, só havia passado por um estágio, então creio ter pouca noção do mercado. Porém, claro, eu sei – tanto pelas notícias, quanto pelos relatos dos colegas, pelas discussões sindicais e pelo momento econômico – que o momento é ruim. Acho também que o jornalismo sempre esteve em crise, sabe? Independentemente do contexto. Pelos estudos/pesquisas da época de faculdade, sempre vimos como uma profissão que constantemente precisava se reinventar. Quão mais polivalente, mais versátil, melhor. E, no nosso caso, no trabalho, por exemplo, é o mesmo profissional quem cuida de tudo: faz o texto, tira a foto, sugere título. E faz tudo isso várias vezes ao dia, de vários textos.
Quais as expectativas para o mercado a médio prazo?
Não sei. Não me parece um bom momento. Aparentemente há mais chances de as pessoas perderem do que conseguirem emprego, por exemplo. E a conquista de uma nova vaga não necessariamente é representa estar bem empregado, porque os salários oferecidos são baixos, as jornadas são longas e “sofridas” e por aí vai.
Qual a principal mudança ocorrida em comparação com a década passada?
Na década passada já tínhamos internet, mas não se fazia jornalismo como agora, né? A ideia era jogar o texto do impresso na rede, como se a web fosse só mais um espaço para fazer aquele material girar. A coisa mudou bastante. Primeiro: a gente já sabe que o texto do impresso não funciona no online. Segundo: a gente tem possibilidade de incluir super fotos, animações e vídeos, o que torna a leitura mais atraente e interativa. Terceiro: a gente tem internet no celular! E isso, acho, é o responsável pela maior mudança. Agora, mais do que nunca, você tem informação em qualquer lugar. Você lê notícia (ou pode ler) não só no trabalho e em casa, mas até no trânsito. Se parecia uma revolução não precisar da nova tiragem ou do telejornal você entrar em um site pelo computador e ler o que te interessa, imagina agora que não há limitação de lugar. Se você está em uma fila, à espera de consulta ou qualquer coisa, é só pegar o celular e navegar. Se há congestionamento, o mesmo. Isso realmente me parece revolucionar as coisas.
O que o mercado digital pede do profissional?
Versatilidade, agilidade, criticidade, atenção, dedicação... Uma série de coisas mesmo. Você tem de ser rápido, tem de ser crítico e ter um olhar acurado para as coisas, não pode errar de forma alguma, tem de ser detalhista e perfeccionista, tem de ter habilidade para no intervalo de uma hora entrevistar o governador no Palácio do Buriti e então uma pessoa que perdeu tudo em um temporal...
Qual a principal dificuldade enfrentada pelos jornalistas hoje em lidar com os meios digitais?
Imagino que entender o funcionamento, a parte técnica, mesmo. A gente depende de uma série de equipamentos, aplicativos podem nos ajudar muito... Então conseguir compreender o que é e para que serve é essencial.
Em média quantos clicks uma noticia do G1 DF consegue?
Não existe uma média por notícia, porque isso é realmente variável. Temos aquelas que ficam chamadas só na nossa página, as que também vão para a home www.g1.globo.com, as que também aparecem em editorias “específicas” (economia, educação, ciência e saúde, música etc.) e as que também vão para a Globo.com. Ah, tem ainda as que são chamadas no Facebook e no Twitter. Naturalmente, em quanto mais locais a matéria tiver chamada, mais leitura ela tem. E há matérias estritamente sobre DF, como falta de luz, ou de cunho “humano”, que ultrapassam isso, como a família de seis dedos que torcia para o Brasil na Copa. Matérias muito locais tendem a ter menos leitura.
Quais as estratégias para atrair o leitor a clicar na notícia?
Há uma série de coisas, realmente, mas não posso comentar todas. O que acho que é básico é o que a gente percebe até empiricamente: blocos longos de texto cansam. Então, ter boas fotos e vídeos, destacar aspas e, claro, ter sempre boas histórias (brinco que temos o tripé quantidade, qualidade e variedade) são posturas importantes para atrair leitura e manter leitores.
O jornalista hoje precisa entender de administração de redes sociais virtuais como Facebook e Twitter?​ Qual o grau de importância disso? ​
Acho que nem todos precisam, mas fato é que informação empodera o profissional. Saber fazer e mexer, além de entender o processo, é importante. Outra coisa que acho que faz a diferença: entender o que esses espaços significam e o quanto sua exposição neles pode te afetar. Embora sua conta seja uma ferramenta pessoal, você não deixa de ser jornalista ao se posicionar ali. É a mesma coisa com o policial que dirige bêbado no dia de folga, sabe? Não dá para alegar isso de também ser uma pessoa comum.
O G1 DF trabalha com jornalismo de dados?
Sim.



É característica do online a informação com extrema rapidez, como é feita a apuração? Ela é comprometida?
Eu acho que uma apuração só fica comprometida se o jornalista não for bom profissional – e isso para qualquer plataforma. Temos as mesmas ferramentas que todos: telefone, e-mail, entrevistas ao vivo, coletivas. A diferença é que a gente pode dar na hora que quiser (nem tudo é publicado no dia que se produz, por exemplo). A gente não precisa esperar ou cortar ou prolongar ou nada. Quando é algo imediato, temos de ter foco e faro para encontrar o lide da história e não ficar perdendo tempo. Acho que isso vai de perfil e treino. E acho que saber fazer isso é vantajoso em qualquer plataforma, viu? Imagina, na TV as pessoas recebem a informação horas antes, mas precisam segurar... No impresso, deixam para o dia seguinte... No nosso, não é preciso esperar. Isso é ótimo, né? E a gente não tem limite de tempo/espaço, nem precisa “enrolar” porque tem buraco no jornal/telejornal.
Você possuí experiência em jornalismo impresso? Como encara essa mudança da profissão e a crise do impresso?
Pouca [experiência]. Acho que a mudança é natural, embora não necessariamente boa. E não sei exatamente como ver essa “crise”. Não acho que ele vá acabar, mas sim se reinventar, que nem aconteceu com o rádio. A sociedade muda, os hábitos mudam, a cultura muda... É natural que o modo de buscar informações também.
Existe espaço na redação, especialmente daqui de Brasília, pra quem não tem interesse nas coberturas tradicionais, como política e economia?
Eu acredito que existe, sim. Tenho um chefe perfeito neste aspecto. Agora, como disse, não dá é para você querer fazer só uma coisa. Tem de ser polivalente. Se a sua sugestão efetivamente for uma boa pauta, é aceita.
Quais as dicas que você pode dar aos alunos que estão entrando agora na Universidade? Como eles devem se preparar para essa longa jornada? (Péssimo trocadilho, eu sei rsrs).
Minhas sugestões não fogem ao comum, mas mais que nunca sei que tudo isso é importante: entender história (é uma pena como muitos jornalistas não têm a menor ideia sobre conhecimentos gerais), ter bom texto (quem sabe escrever bem se dá bem em qualquer plataforma), ler bastante, ser crítico, ser humilde (é comum ver gente com pouco tempo de estrada querendo escolher o que faz, achando que é bom demais para isso ou aquilo), ser rápido, ter capacidade para se adaptar às mais diversas situações/fontes/colegas, gostar muito de trabalhar (e jornalismo vicia, viu?), ser honesto/ético e reconhecer falhas, aceitar críticas, saber ouvir todo mundo (as pautas surgem de todas as formas, até na portaria da academia) e entender que a gente precisa ganhar o jogo todo dia. Não basta ter uma, duas, três grandes histórias. A cada dia você precisa de uma muito incrível, então não se contente por ter conseguido algo muito legal uma vez. Aliás, acho que essa sede/faro/paixão pela notícia, gostar de ouvir as pessoas e de contar as histórias delas, faz muita diferença!





*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação da UnB, 2ºSemestre/2015.

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