“A sociedade do espetáculo e do consumo transformaram o jornalismo”

Cláudia Nonato, doutora em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), discute sobre as transformações pelas quais o jornalismo tem passado e como os novos profissionais devem se adaptar a essa nova fase.

Por Gabriela Brito e Gabriela Romano*


Em seu artigo "Do impresso aos blogs: a busca dos jornalistas pela liberdade de expressão em novos métodos e processos produtivos" você menciona a dependência de jornalistas aos anúncios para manter seus blogs funcionando, o que às vezes os impede de expressar sua verdadeira opinião, ou sua opinião completa. Como garantir que ela não se dobre às vontades exteriores?

Não há como garantir. Essa é uma atitude que cabe diretamente ao jornalista, que tem a opção de se dobrar ou não aos anunciantes, mesmo sabendo do custo dessa decisão. Vai depender muito do posicionamento ideológico do profissional.
 
Você acredita que no futuro próximo o webjornalismo superará o jornalismo impresso, ou que ainda haverá espaço para uma simbiose?

Em relação aos anunciantes, o webjornalismo já superou o impresso, pois estes migraram para a internet. E, embora estejamos acompanhando o fechamento de diversos veículos impressos, acredito que ainda haverá espaço para os dois. Mas o jornalismo impresso precisa se adaptar e se reinventar, procurando pautas e análises diferenciadas daquelas publicadas na web. Mais aprofundadas, talvez.  


Você também menciona, no artigo, que a maioria dos jovens aspira ao cargo de repórter no campo de cultura e entretenimento. Como isso se reflete no blog, e por que um enfoque nessas áreas?

Os jovens que ingressam hoje no jornalismo têm uma visão diferente da profissão; na minha época, fazíamos jornalismo por razões humanistas, queríamos mudar o mundo, ajudar a fazer uma sociedade mais justa. A sociedade do espetáculo e do consumo transformaram o jornalismo, e hoje a expectativa dos jovens é outra; buscam o mundo das celebridades, da fama e (por que não?) do dinheiro. E as áreas de cultura, entretenimento e esporte são as que mais propiciam isso, ou melhor, são as que têm mais visibilidade. Como hoje as redações são enxutas é muito difícil arrumar emprego nessas áreas. Os empregos estão nas assessorias de imprensa, que nem sempre agradam ou trazem a visibilidade necessária. Nesse cenário, os blogs apareceram, na minha pesquisa, como uma opção, tanto para ter o prazer de escrever sobre o que gosta, quanto para divulgar o [próprio] trabalho.

Com a Internet, o financiamento coletivo (crowdfunding) tornou-se tendência. Qual sua opinião sobre esse tipo de ação coletiva para manter vivos blogs jornalísticos? Acredita ser a solução mais prática?

O crowdfunding foi, na verdade, uma solução emergencial que acabou se transformando em alternativa de sobrevivência para alguns jornalistas e blogs. Eu acho que o método é válido, mas ainda não é suficiente para a manutenção de um veículo. Geralmente, os profissionais que utilizam o financiamento coletivo possuem outros empregos, fazem freelancer ou possuem outra fonte de renda.

Qual deve ser a atitude do jornalista hoje diante da convivência dessas duas realidades (impressa e virtual)?

O jornalista, assim como profissionais de outras áreas, deve se adaptar às duas realidades, porque o mundo trabalho exige hoje essa polivalência. Um mesmo texto é publicado no online, no impresso, tem que fazer o podcast, vídeo, fotografia...aqueles que não se adaptaram a esses novos tempos, estão fora do mercado de trabalho. 

O jornalismo é uma profissão que ainda possui espaço, ou está fadada à morte, já que a Internet possibilitou a qualquer um expressar sua opinião e escrever o que bem entender (mesmo que sem necessariamente checar fatos)?

Eu acho que nós já passamos da fase de achar que o jornalismo vai acabar. Está comprovado que esses profissionais estão sempre se reinventando, acompanhando as mudanças, que são recentes e ainda estão acontecendo no mundo do trabalho. Esse acesso do cidadão comum aos meios de comunicação foi outra grande mudança: pessoas comuns começaram a pautar os jornais, participar da notícia, criticar e elogiar diretamente as matérias, e isso assustou um pouco. Mas hoje as pessoas já se habituaram à internet, e sabem selecionar quem tem credibilidade e preparo para publicar notícias.

*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação da UnB, 2ºSemestre/2015.

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