Sobre jornalistas que nascem e morrem todos os dias

Luiz Martins da Silva, apaixonado pela poesia, interessado em fazer alguma diferença no âmbito social, fala sobre os desafios de ser jornalista.

Por Ana Luisa Araujo e Nathália Lima*


Foto: Arquivo Pessoal
Luiz Martins da Silva, Graduado em jornalismo, Mestre em Comunicação, Doutor em Sociologia. Trabalhou em lugares como Jornal de Brasília, Veja, O Globo e Revista Ciência Hoje. Professor da Universidade de Brasília (UnB), onde foi graduado, desde 1988. E além de tudo, é poeta e escritor.


Onde você graduou em jornalismo?

Na Universidade de Brasília, na Faculdade de Comunicação, que na época tinha sido rebaixada para departamento de comunicação, que tinha habilitações em jornalismo, publicidade e relações públicas.

Qual que você acredita ser a relevância da mídia?

Você já ouviu falar de alguma grande causa que não precise da mídia? Pelo contrário vem desde a campanha das Nações Unidas até a campanha do síndico do seu bloco, tudo precisa de comunicação, tudo precisa da mídia, tudo precisa da persuasão, do convencimento, as pessoas serão convencidas no que elas já sabem, mas é preciso que você também obtenha mudança de conduta das pessoas que já sabem qual é a conduta correta.

Qual o papel do jornalismo hoje?

Houve uma época em que no jornalismo, fatos são fatos, e nossa meta é publicar os fatos, mas no início da década de 90 para cá, não basta simplesmente apresentar o fato, é preciso apresentar o fato, mas um valor agregado, um contexto, uma informação adicional a simples informação factual. Ou seja, é quando o fato vem agregado de valor, utilidade pública e serviço, nem sempre o que é interessante é importante ao paladar midiático. O jornalismo vai fornecer elementos para o ser humano sair da sua letargia e transformar o mundo.

Qual o grande desafio do jornalismo?
O grande desafio não é passar a informação, o grande desafio é o que as pessoas vão fazer com a informação pra tornar a vida delas mais agradável, mais feliz, mais equilibrada, mais respeitosa, mais equânime da distribuição dos bens. Para além do valor notícia, o jornalismo tem a responsabilidade de construir uma sociedade reflexiva.

Por que você escolheu ser jornalista?
Eu queria ser sociólogo. Mas sociologia numa época de ditadura, filho de uma família migrante, pobre e sozinho em Brasília. Ia fazer jornalismo? Eu queria fazer cinema, depois queria fazer sociologia. Eu tinha na cabeça que eu tinha um chamado para o social, eu acho que se eu viesse ao mundo e não pensasse em transformar alguma coisa no mundo eu me sentiria indigno, era uma mentalidade da época. Outra coisa jornalismo se aproximava da escrita, eu sempre tive uma forte ligação com a escrita e com a poesia.

Nunca sentiu interesse por publicidade?

Não, no início não. Mas quando eu fiz mestrado eu senti necessidade em sondar o que havia de resposta com relação a seguinte pergunta: Por que os meios de comunicação têm uma capacidade tão grande para vender inclusive o que as pessoas não podem comprar, não tem como comprar e mais não dão conta de consumir? Durante o mestrado quis retratar a sedução para o consumo e no doutorado eu quis entender por que é tão difícil, usando os meios de comunicação, obter-se mudanças de conduta quando se trata de campanhas públicas, civismo, participação do cidadão na sociedade.


Mas e no dia a dia, como é ser jornalista?

O jornalista nasce e morre todo o dia, ele sofre de um complexo de Sísifo, ser jornalista é rolar uma pedra pro topo da montanha, e quando chega no topo da montanha ele tem que rolar a pedra de volta. Todo dia o jornalista não tem nada, ele sai e tem que voltar com um produto que é bom, que é nobre, que é coletivo e que ninguém tenha entregado. É pegar um produto que tenha valor social, lastro social, utilidade pública, que é um serviço e você democratizar aquilo todo dia, você quer uma profissão mais socialista do que essa? Ser jornalista não é igual a ser um dentista, e acho que é isso que diferencia tanto a profissão, o dentista abre o consultório, tem horário de almoço, fecha o consultório, e é isso, o jornalista não, ele tem que estar ligado o tempo inteiro. A vida de jornalista é uma meia vida, 90% da vida dele é para a profissão.

Quais lugares você já trabalhou?

Aí olha, eu já trabalhei, outra coisa você nunca sabe o que você vai escrever. Eu me preparei para ser jornalista crítico de artes plásticas, nunca consegui uma chance (risos). Mas me pergunta se não me mandaram fazer jornalismo econômico, ministério do planejamento, política, relações externas, comércio exterior, cobri Presidência da República. Trabalhei no Jornal de Brasília, duas vezes, já fui estagiário no Correio (Braziliense), na Veja, principalmente, 8 anos na redação do Globo, trabalhei cinco anos com Comércio Exterior em revistas da Fundação de um Órgão do Itamaraty, a única revista que divulgava o Brasil para o mundo em cinco línguas diferentes, trabalhei pra revista Ciência Hoje. Foi quando eu fiz concurso público para o Jornal Campus, em 1988.

Como se tornou professor?

Nunca pensei em ser professor e acho isso uma petulância. Eu acho que sou menos esquizofrênico como professor, o jornalismo é uma profissão muito dilacerante.

Qual a pessoa que mais gostou de entrevistar?

Puxa vida, em questões de gosto, Cora Coralina. A entrevista mais difícil foi com um antigo jurista Miguel Reale, era um jurista muito importante e respeitadíssimo na época e eu fui lá com o maior preconceito com aquele homem porque aquele homem tinha sido integralista e eu jovenzinho: “ Que coisa, vou entrevistar um fascista! ” Ele teve a maior paciência e conversou duas horas comigo.

Qual a maior diferença ou dificuldade que você nota desse novo jornalismo, chamado jornalismo 2.0, para o antigo jornalismo?

Esse jornalismo, sabe, jornalismo turbina, acho que é um jornalismo fast food, um jornalismo muito ligeiro, ele é importante, ele é necessário.

Qual o lugar que você gostaria de ter trabalhado, um sonho seu?

Sabe onde eu gostaria de ter trabalhado? [Na revista] National Geographic.



*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2º Semestre/2015.

Postar um comentário