O gosto pelo negativo

Por Amanda Corcino*

Foto: Luís Felipe Abreu
Torneio Nacional de Ginástica Rítmica de 2010, Rio de Janeiro. Competíamos por equipes. Fomos nos vestir e quando pegamos nossos collants - o maiô que as ginastas usam - eles simplesmente não estavam prontos. Não tinham todos os bordados, estavam diferentes entre si e pior: não tinha a calcinha por debaixo da saia.Demos uns pontinhos para prender a calcinha e partimos para a competição. Com os nervos à flor da pele, o resultado foi não menos que desastroso. Por fim, conseguimos o 5º lugar.

Chegando a Brasília, uma jornalista do Correio veio fazer uma matéria sobre minha amiga que ganhou o primeiro lugar individual dentre 70 competidoras. Ela era do interior da Bahia eveio treinar em Brasília, pois tinha grande potencial para o esporte, pouco difundido no Nordeste. “Menina do interior da Bahia torna-se Campeã Nacional”, pauta boa para um meio de semana. Mas, como bem disse Bourdieu, os jornalistas usam óculos especiais, e, nesse caso, ressaltaram o negativo.A jornalista ficou horas entrevistando minha amiga. Finalizado, as técnicas foram embora. Minha equipe ficou ali por mais um tempo quando a jornalista começou a fazer perguntas.
No dia seguinte, a surpresa: todo o desastre da nossa competição inclusive o nome da costureira, tudo acompanhado por um“diz Amanda Corcino”.Minha amiga que ficou em primeiro lugar? Tinha uma nota de cinco linhas no canto da página. O desenrolar foi de broncas da técnica e pedidos de desculpas para todo lado.
Nesse dia descobri a jornalista que não quero ser. Não quero me aproveitar de crianças de 13 anos desacompanhadas a fim de pegar relatos desastrosos e publicar uma matéria sensacionalista. E esse fato me perseguiu por tanto tempo que na hora de escolher minha habilitação escolhi publicidade. Mas, acredito no “quando é pra ser, será” e hoje sei que publicitária não quero ser.O jornalismo sempre me atraiu e hoje procuro entender a jornalista que quero ser, seguindo a ética e não esquecendo a sedução de “tornar público” que o jornalismo traz.


*Estudante da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação,UnB, 2. Semestre 2015.



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