Lá vêm os burros de voz grossa
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Jornalista diz ter sofrido preconceito ao migrar do rádio para a TV.
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| Foto: Arquivo pessoal William Galvão |
Conte um pouco da sua trajetória profissional. Como se deu o contato com o rádio, que foi seu primeiro veículo dentro da área de comunicação?
Meu contato com o rádio foi uma obra do acaso. A gente quando tem uma voz um pouquinho mais grave as pessoas ficam perturbando “Por que você não faz rádio?”, “Você tem que ser locutor”, mas não fazia parte do meu dia-a-dia, não gostava da ideia. Como guia de turismo, eu fazia muitas excursões para fora da cidade e, em uma dessas excursões, eu tive que ligar para a rádio para saber o valor dos ingressos de uma festa pra poder levar a galera que eu estava acompanhando. O cara da rádio falou que eu tinha uma voz legal e pediu pra que eu passasse por lá, eu acabei indo e fiquei amigo do pessoal da rádio a ponto de sairmos juntos. Nesse tempo houve uma mudança na direção e fui surpreendido com um convite pra participar da rádio porque já tinham ouvido falar sobre mim e queriam que eu fizesse um teste. Eu tinha uma semana pra dar uma resposta. Então em mil novecentos e oitenta e oito eu decidi trancar a faculdade, sair de Brasília e começar a fazer rádio.
O primeiro veículo pelo qual passou foi o rádio e você disse que seu primeiro contato foi uma “obra do acaso”. Esse veículo especificamente demanda do profissional uma série de habilidades. Nessas condições, você teve algum tipo de dificuldade?
Na verdade, não. Pelo simples fato de que tive excelentes professores e quando você vai para uma rádio do interior tem a oportunidade de ver todos os tipos de programa. Como é a única rádio da cidade a programação é variada (em programa sertanejo, outro só de MPB, outro para o público jovem), no entanto não direcionada. Então é uma escola maravilhosa. Você tem seis ou oito tipos de rádio acontecendo em uma só. Como as pessoas precisam de um profissional ainda em formação têm muita paciência para ensinar. Quando fui para essa rádio fora de Brasília eu tinha vinte e quatro horas do meu dia para trabalhar. Então eu chegava pela manhã (entrei como locutor noticiarista), passava o dia inteiro na rádio e à noite sintonizava nas grandes FMs (Rádio Tamoio do Rio de Janeiro, Rádio Mundial no Rio de Janeiro). E eu via os craques de rádio AM e isso me ajudou muito a pegar rapidamente o que eu deveria fazer dentro da rádio. Além disso, quando eu fui trabalhar na rádio, já era uma pessoa que estava graduação, já tinha hábitos de ler jornais, de assistir um telejornal, ouvia rádios da capital, então eu tinha um material bom pra se usar no rádio em termos de informação que a grande maioria das pessoas na rádio e na cidade não tinham e isso pra mim foi um diferencial importante. Ter a informação e saber como utilizar essa informação é uma forma de você se destacar no mercado.
Quando você voltou à Brasília?
Como minha família e amigos estavam em Brasília, a experiência serviu como curso. No final de 89 eu já estava de volta à Brasília, numa rádio chamada Rádio Cidade que havia aberto pra testes. Passei no teste e iniciei minha história de rádio em Brasília.
Depois da Rádio Cidade, como se deu seu desenvolvimento no veículo?
Bom, depois da Rádio Cidade, fui para a Rádio Globo, tive uma rápida passagem pela Rádio Manchete, Rádio Jornal de Brasília, Rádio Transamérica, Rádio Nova Brasil, também fiz algumas semanas de férias na Rádio Senado. A rádio também me levou para a locução publicitária, ou seja, a gravação de comerciais. Então, quase junto com a minha entrada na rádio em noventa [anos 90], comecei a gravar comerciais. Participei de várias campanhas nacionais, creio que minhas campanhas mais conhecidas foram as presidenciais. Em 2006, fui o locutor da campanha do Lula para a reeleição; em 2010 a da Dilma e em 2014 também da Dilma. Por estar sempre em estúdio gravando comerciais, fui chamado também para fazer a voz da TV Câmara. Então quando a TV Câmara surgiu, entrei como locutor e da locução de cabine para apresentador foi um passo.
Depois de alguns anos no rádio, você migrou para a televisão que é um veículo distinto. Você teve problemas para se adaptar ou sofreu algum tipo de preconceito por ter vindo do rádio?
São públicos bem distintos e você precisa se adaptar. É interessante você utilizar a palavra “sofreu”, porque a gente sofre certo preconceito. A tevê costuma enxergar as pessoas do rádio como a turma dos burros de voz grossa, e esse preconceito, no começo, eu senti, mas é engraçado como você consegue, com o tempo, desconstruir essa ideia errada. Na tevê grande parte da programação é gravada, a rádio funciona como o caminho inverso, quase tudo é ao vivo. Então, essa facilidade que o radialista tem de improvisar, de sair do texto, de criar; a facilidade com o “ao vivo” na tevê é muito valorizada.
Eu diria que o radialista está para o jornalista de tevê, como o ator de teatro está para o ator de cinema ou tevê.
Muito bem colocada sua analogia. No meu ponto de vista, o radialista tende a se sair melhor numa situação de improviso, em que o jornalista que está acostumado a seguir um roteiro, com perguntas já pré-programadas. E essa é uma vantagem de quem vem de uma vida inteira fazendo tudo ao vivo.
Estamos vivendo um momento de crise do jornalismo e é muito comum ver as demissões em massa ocorrerem em empresas privadas. Nesses dezessete anos de carreira você já foi vítima dessas demissões? A TV Câmara, por exemplo, é uma tevê legislativa há alguma vantagem nesse sentido?
A TV Câmara é uma tevê do Supremo Tribunal Federal. Esse tipo de coisa acontece quando vai abrir concurso e todos os funcionários vão passar a ser concursados, há a demissão dos terceirizados que são a maioria. Vi isso acontecer também quando trabalhava em rádio e começou a “moda” das rádios via satélite, quando ocorreu um festival de fechamento de rádios e demissão em massa. Na Transamérica, por exemplo, quando entenderam que mandar a programação de São Paulo para Brasília seria uma ótima opção pra todo mundo e o departamento artístico inteiro foi demitido. Tive a oportunidade de fazer a volta da locução da Transamérica após esse “período de trevas”, quando decidiram reabrir novas janelas para Brasília e abandonar a programação que até então era de São Paulo. Outra situação de demissão em massa, que foi até traumática, ocorreu quando eu estava na Rádio Globo em meados de 1993. Nessa situação, entramos no ar para a Voz do Brasil às sete horas da noite e no meio da programação teve uma reunião informando que todos estavam demitidos e que a partir daquele momento a rádio seria a CBN.
Um termo muito utilizado atualmente é o Jornalismo 2.0. Ele prevê que o jornalista seja multimídia e hábil, ou seja, altamente adaptável. Como você se sente nesse novo cenário do jornalismo? Em algum momento você teve que explorar suas habilidades?
Não tive. Como você disse é um fenômeno relativamente recente e pode ter uma capa falsa de uma necessidade de agilidade ou de uma nova forma de se expressar, mas vejo com certo desagrado, porque parece que em todas essas situações o que se vê é uma necessidade da empresa de economizar. Pra mim isso é um corte de gastos prejudicial ao resultado final. Não há como dizer que com um “pau de selfie” e uma câmera, o indivíduo vai cumprir o papel de repórter, assistente, cinegrafista e fazer uma imagem tão boa quanto a que um cinegrafista faria com a câmera no ombro, ou uma luz tão boa quanto a que um auxiliar faria com o rebatedor. Então, quando você vai pra rua e desempenha as três funções, você não vai trazer um produto com tanta qualidade. Em cima disso, as pessoas tentam maquiar dizendo que é a necessidade de uma informação mais rápida, desse novo formato. Sou completamente contra. Gosto da ideia de ter um especialista.
Qual a maior vantagem de trabalhar em rádio?
O mais interessante de rádio é que te possibilita vários ganhos fora o seu salário fixo. Tem as gravações de comerciais, muitas rádios pagam parte do salário do profissional com mídia, ou seja, dão direito a ele de vender comerciais. Existem locutores, por exemplo, que trabalham promovendo eventos.
Na tevê, existe a mesma possibilidade de ganho?
Na tevê, não. A tevê tem aquele salário fechado e que fica por sua conta. Agora, a maior parte das pessoas que trabalham em televisão, trabalha em mais de uma empresa. Como a grade horária é de seis horas, eu diria até que oitenta por cento de pessoas que trabalham numa redação trabalham em duas emissoras.
Com relação a isso não existem restrições de contrato que impedem o jornalista de trabalhar em duas empresas?
De forma alguma. Aqui em Brasília, a única que possui essa exclusividade é a Rede Globo. Por exemplo, uma pessoa pode trabalhar na Band, por exemplo, como apresentador e na TV Justiça como editor. É muito comum.
Para finalizar, em 2009, o Supremo Tribunal Federal eliminou a exigência do diploma para o exercício do jornalismo. Em sua opinião, qual a importância do diploma?
O diploma é fundamental. Em tevê, o diploma de jornalismo faz falta porque você precisa de um conhecimento teórico, coisas relacionadas à ética, mas existe uma série de funções que eu poderia exercer sem o diploma, sem a graduação de jornalismo. Em decisão recente do supremo a partir da qual se podia exercer qualquer função sem o diploma, eu aproveitei e tirei o registro de jornalista, mas na verdade, sou graduado em turismo.
*Estudantes da disciplina Introdução a Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2º Semestre/2015.



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