“Eu sempre fui fotojornalista”

Fotógrafo Allan Marques, da Folha de S. Paulo, defende que modelo de negócios do jornalismo impresso está em crise

Por Amanda Corcino, Giórgia Plauto e Isadora Prado*



Conte um pouco da sua trajetória dentro do jornalismo: por que escolheu jornalismo? Arrepende-se de alguma coisa?Eu sempre fui fotojornalista. Comecei a trabalhar em 1992 como repórter fotográfico antes de ter a graduação em Comunicação Social. Quando eu comecei [a trabalhar] eu tinha 19 anos, mais ou menos a idade de vocês. Já comecei na área de fotojornalismo e depois eu fiz o curso de graduação. Então, para vocês terem uma ideia, na época em que eu tava dando os primeiros passos na área de fotojornalismo, meu curso era Administração de Empresas. Então não tem uma história de por que eu virei fotógrafo, foi uma escolha anterior. Eu venho de uma família de jornalistas, meus irmãos são fotógrafos, então desde pequeno eu comecei a fotografar, aos 10 anos comecei a usar câmera profissional. Com 19 anos, já estava na faculdade de Administração e precisava de um estágio para ganhar dinheiro e me chamaram para trabalhar dentro de um laboratório de fotografia. Foi dentro do laboratório de fotografia que eu aprendi a arte do fotojornalismo, porque esse laboratório era de um jornal grande. Então foi esse o processo. A minha entrada no fotojornalismo não passou pelo jornalismo, passou pela tradição de fotografia. Aí depois do curso de Administração eu decidi fazer Jornalismo para entender as outras nuances da profissão, porque fotojornalismo é apenas um segmento. Dentro do jornalismo você tem uma área de trabalho gigante. Aí acabei fazendo um master na minha área de Administração, que é uma área de gestão estratégica pela Fundação Getúlio Vargas e agora tô aqui na Academia.


Como você começou a trabalhar na Folha de S. Paulo? Há quanto tempo você trabalha lá?Comecei a trabalhar na Folha em 1997, tem bastante tempo. Fui convidado a trabalhar na Folha por causa do meu trabalho anterior. Trabalhei no Jornal de Brasília e n’O Globo. A Folha tem um processo de seleção, tem umas provas, mas primeiro fui convidado por causa do meu trabalho. Comecei em 1997 e de lá até hoje.


Como é sua rotina de trabalho na Folha?O horário dentro do jornal é uma coisa muito complicada. Nos outros meios de comunicação, você tem um regime de horários que é bem respeitado, mas dentro do jornal não tem esse controle tão rígido, então eu vou acabar trabalhando o tempo que o jornal me convocar. Eu começo nove horas e vou até o fechamento do jornal, por volta de oito, nove horas da noite. Mas às vezes viro, às vezes tenho que trabalhar mais. A rotina começa com a pauta do dia. A gente começa a trabalhar por volta de nove horas, mas antes disso a gente recebe a pauta e já sabe as diretrizes que o jornal vai tomar naquele dia: já sabe o que vai acontecer no Congresso, no Palácio, e aí você é direcionado pra algum desses. Como eu trabalho pra sucursal em Brasília, meu trabalho de fotojornalista é ligado à pauta mas desligado do repórter, porque a produção da fotografia está muito centrada na agenda oficial tanto do Palácio do Planalto quanto dos outros poderes, então o que a gente trabalha, a produção de imagens, a criação de um discurso fotográfico, já é baseado na pauta, então não existe essa ligação direta com o repórter. A ligação é via redação. Mesmo assim a gente acaba conversando porque é muito bom o debate entre o que vai se escrever e o que vai se publicar como imagem.


Você está satisfeito com a sua rotina de trabalho, com o meio em que você está hoje? Tem perspectivas de estar em outro lugar no futuro?Sim [sobre estar satisfeito]. O grande lance do jornal é que é de consumo imediato, ele é um meio que se extingue depois de sua leitura, então a minha ideia é vir para a Academia agora porque aqui existe uma pesquisa mais aprofundada e aí você consegue desenvolver projetos que sejam mais consistentes. Mas o jornal me dá muita satisfação, até porque o papel social do jornal que é muito importante. Por ele ser de consumo imediato, ele transforma a sociedade de uma forma mais forte, mais intensa do que as pesquisas na Academia, que são de gestão mais longa. São dois processos diferentes. Mas isso sempre me trouxe satisfação, tanto lá [no jornal] quanto aqui [na Academia].


Muitas vezes nós como futuros jornalistas vemos de outras pessoas uma visão muito pessimista do futuro na profissão, o que pode desmotivar muita gente. O que você tem a dizer sobre isso?Cada pessoa tem uma forma de tratar a vida diferente. Se algumas pessoas falam de forma pessimista sobre a profissão ou a carreira delas, é uma questão de valor deles. Você não pode trazer isso para você. Primeiro porque você não é ele/ela, vocês são diferentes. O que você vai alcançar é diferente do que ele alcançou. Você pode ser maior ou menor do que ele, vai depender de você. A universidade vai te preparar para fazer coisas diferentes. Você gosta de contar histórias? Você pode ser uma escritora. É só desenvolver a técnica para escrever para livro. O jornalismo é só uma ferramenta que vai te dar para você se desenvolver no mundo. Se as pessoas estão te passando uma visão negativa, essa insatisfação é uma coisa pessoal delas. É claro que hoje em dia existe uma crise gigantesca no país, não só nos meios de comunicação, então você tem que estar preparada para isso. Você se prepara de várias maneiras.


Qual é sua visão em relação a esses comentários, esse cenário que surge de que o jornalismo está passando por uma mudança de modelo do impresso para a Internet?O que está em crise é o modelo de negócios. O modelo de negócios hoje no impresso está indo pra um lugar que não vai existir no futuro. Hoje a gente se comunica muito mais com telefone celular, smartphone é a coisa mais importante que existe hoje na nossa vida. O modelo de negócios está em crise, mas isso não significa que o jornalismo esteja em crise. Você tem que se posicionar. Se você quer produzir matérias com maior densidade, com maior profundidade, com maior inserção na sociedade você pode fazer isso pela Internet. A comunicação é a coisa mais importante que existe na nossa sociedade contemporânea. Então se você se torna um especialista nisso, você tem emprego sempre. E outra coisa: jornal é uma coisa, TV é outra, rádio é outra e Internet são todas as coisas juntas. Você está pensando em morar fora? Eu passei um tempo fora em Londres, foi a melhor experiência da minha vida.


Quanto tempo você passou em Londres? Como foi a experiência?Fui aprender inglês. Estava ainda na idade de vocês, uns vinte e poucos anos e fui aprender inglês, que é o idioma mais importante. Sugiro que vocês aprendam inglês, espanhol, francês e mandarim. Passei pouco tempo em Londres, quatro meses, mas foi o suficiente. Passei em Londres primeiro mas fui conhecer a Europa. Viajar acho que é a coisa mais importante do mundo pro jornalista.


Que dicas você dá para quem está começando no jornalismo?Manual de introdução não existe, cada pessoa é diferente. As coisas que eu fiz não são as coisas que todos vão fazer, cada um age de maneira diferente. O básico é vocês não saírem da universidade sem o conhecimento adequado, e esse conhecimento não é só de ferramentas, é o conhecimento de você pensar e saber se posicionar perante as coisas que vão acontecer, porque você precisa ter ideias, precisa defender as próprias ideias. Pra você fazer esse tipo de defesa, você precisa ter o domínio dos conceitos e do conteúdo. Então a pessoa tem que ter uma capacidade forte de se posicionar perante o mundo. Acho que é a única coisa, mais genérico, que eu posso passar pra vocês. Cada um de vocês vai se comportar diferente.


Qual é a visão dos grandes veículos de comunicação como a Folha em relação a mídias colaborativas como a Mídia Ninja e sobre a questão da imparcialidade jornalística?Essa história de que existe imparcialidade não é verdade. Todo mundo que está se posicionando em uma manifestação, na vida como um todo, tem uma visão. Só por ter essa visão já é parcial. Isso de imparcialidade de qualquer meio é falacioso. O meio de comunicação é um meio de mediação: você pega um pedaço da notícia e leva para consumo do leitor. O que a Mídia Ninja faz é divulgação do evento inteiro, streaming, não havia mediação. As pessoas iam lá e assistiam o tempo que quisessem. É uma outra forma de comunicação. E quem financia os grandes veículos de comunicação é a área do dinheiro, da publicidade, do marketing, das vendas. Mídia Ninja também, alguém os financia. Então se ele é financiado por alguém, ele tem uma linha editorial. Ele tem uma visão, não existe essa imparcialidade. Quando você põe a assinatura em um coletivo, você tira a responsabilidade de quem tá fazendo a captura do fato porque a responsabilidade de uma cobertura tem de ser individual. Você tem que ser responsável pelo o que você tá dizendo. A Constituição não permite anonimato. Bota [a responsabilidade] no cooperativismo e quem é responsável por isso?


Como fotojornalista, quais foram os maiores desafios que você teve que enfrentar?Para o fotojornalista, o desafio é diário. Porque a gente não consegue fazer matéria de casa nem da redação. A gente é o cara da linha de frente, nós somos a ponta da lança da guerra, aquela primeira coisinha que chega no evento. Todo dia é um desafio, porque foto é furtiva, se você não fizer ela escapa e não tem como recuperar. Texto consegue. Então é uma coisa que você tem que tomar muito cuidado. O desafio é diário. Eu já participei de coberturas bem tensas. Não existe fotojornalismo fácil.


Você pode dar exemplos dessas coberturas?Qualquer invasão que exista polícia e manifestante é tenso. Porque você pode tomar um tiro, uma facada, uma pedrada, você pode se machucar ou até morrer. Tivemos um exemplo disso em fevereiro do ano retrasado do cinegrafista Santiago Andrade que foi morto durante uma manifestação. Ele estava filmando e foi acertado por um rojão pelas costas, foi um manifestante que o matou. Todas as manifestações são complicadíssimas e aqui em Brasília o que mais tem é manifestação. Então é complicado.A cobertura da queda do avião 1907 da Gol foi um resgate que a gente teve que fazer, que foi feito pelo Exército, pelas Forças Armadas e as polícias, foi feito no meio da Floresta Amazônica. Pra fazer esse tipo de cobertura, eu tive que ir para lá no meio da floresta, então teve um problema de logística forte e isso é muito difícil para um repórter fotográfico. Se você está trabalhando aqui perto do escritório, se você tiver algum problema, você tem um escritório. Lá não, você está sozinho no meio do mato.O terremoto do Haiti em 2010 também foi outro evento. Eu cheguei lá poucos dias depois do terremoto para fazer a cobertura, um país que tinha acabado de ser devastado. São esses exemplos que eu lembro, mas posso falar um monte. Eu fiz a campanha presidencial do Fernando Henrique [Cardoso] pra cá. Todas as campanhas são complicadas. Todas as coberturas para o fotojornalista depende da habilidade dele de fragmentar o tempo para transformar aquele pedaço de tempo em algo que seja significativo, tenha informação visual e de notícia para o leitor. Não é todo mundo que consegue se manter em pé sob tanta pressão.



*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2º Semestre/2015.


Uma vasta carreira: do jornalismo a assessoria de imprensa

"Não deixei de ser jornalista"



Foto: Sandra Sato

Sandra Sato estudou jornalismo na Universidade de Brasília junto com grandes nomes do jornalismo contemporâneo, como a jornalista e professora da UnB, Marcia Marques. Passou por diversos jornais e diretorias, dentre eles, trabalhou no Estadão por cerca de 16 anos. Hoje, ela trabalha na área de assessoria de imprensa no Ministério Publico e ainda  'e apaixonada por sua profissão.



Você se graduou na Universidade de Brasília em Jornalismo. Na época, como era o currículo dos estudantes de jornalismo? O curso já era integrado com audiovisual e publicidade e propaganda?
Já faz muito tempo. Lembro apenas que, no final do curso, houve reformulação de currículo.
 

Apesar de hoje viver em Brasília, você já teve de mudar de cidade por conta de sua carreira?
Não. Quase mudei para São Paulo, mas o mercado de Brasília era bastante interessante para jornalistas.
 

Você trabalhou em um dos maiores veículos de comunicação do Brasil, o Estadão. Como foi essa experiência?

Eu cresci profissionalmente dentro da redação do Estadão, onde passei por todas as áreas (nacional, economia e política). A profissão me permitiu testemunhar e participar muito de perto de momentos históricos desse país, como a retomada da democracia, a Assembleia Nacional Constituinte, a adoção do real, o impeachment de um presidente, a transmissão da faixa presidencial de um sociólogo para um trabalhador.
 

Você, hoje, trabalha com assessoria de imprensa. Como é o mercado atual para essa área?
O curso de jornalismo oferece uma boa base para que o profissional atenda também como assessor? R: As vagas nas redações estão cada vez mais reduzidas e o mercado que prospera é o de assessoria de imprensa.   Estou longe da academia, por isso não sei analisar se o curso de jornalismo assegura uma boa base.  
 
 Qual foi um dos maiores desafios que você enfrentou em sua carreira jornalística?
Cobrir o Banco Central num recesso de fim de ano. Eu cobria Ministério da Fazenda e foi escalada para substituir um colega. No BC, a cobertura é extremamente técnica e as fontes usam siglas/jargões de forma corrente.
 
É importante para um assessor de imprensa manter um bom relacionamento com jornalistas. Como construir essa relação e o que deve ser evitado fazer para não prejudicá-la?
É no dia-a-dia que se constrói essa relação, com conversas francas, com informação, com clareza do papel de cada um.   Às vezes, até com embates. O pior dos mundos nessa relação é a quebra da credibilidade.
 
Levando em consideração a carreira jornalística, qual a matéria que você mais gostou de cobrir?
Foram tantas, difícil escolher. Cito uma delas: a ida a reserva extrativista do Médio Juruá, onde descobri uma civilização no meio da floresta.
  
Foi difícil a transição do jornalismo tradicional para a assessoria de imprensa?
Não, porque fui trabalhar numa área com a qual me identificava muito e não deixei de ser jornalista. Isto a gente carrega para vida toda, quando tem uma grande vivencia em redação.
 
Você pretende voltar a trabalhar com o jornalismo tradicional no futuro?
Tenho saudades de redação e curiosidade em saber como seria voltar a este mercado.  



Sobre jornalistas que nascem e morrem todos os dias

Luiz Martins da Silva, apaixonado pela poesia, interessado em fazer alguma diferença no âmbito social, fala sobre os desafios de ser jornalista.

Por Ana Luisa Araujo e Nathália Lima*


Foto: Arquivo Pessoal
Luiz Martins da Silva, Graduado em jornalismo, Mestre em Comunicação, Doutor em Sociologia. Trabalhou em lugares como Jornal de Brasília, Veja, O Globo e Revista Ciência Hoje. Professor da Universidade de Brasília (UnB), onde foi graduado, desde 1988. E além de tudo, é poeta e escritor.


Onde você graduou em jornalismo?

Na Universidade de Brasília, na Faculdade de Comunicação, que na época tinha sido rebaixada para departamento de comunicação, que tinha habilitações em jornalismo, publicidade e relações públicas.

Qual que você acredita ser a relevância da mídia?

Você já ouviu falar de alguma grande causa que não precise da mídia? Pelo contrário vem desde a campanha das Nações Unidas até a campanha do síndico do seu bloco, tudo precisa de comunicação, tudo precisa da mídia, tudo precisa da persuasão, do convencimento, as pessoas serão convencidas no que elas já sabem, mas é preciso que você também obtenha mudança de conduta das pessoas que já sabem qual é a conduta correta.

Qual o papel do jornalismo hoje?

Houve uma época em que no jornalismo, fatos são fatos, e nossa meta é publicar os fatos, mas no início da década de 90 para cá, não basta simplesmente apresentar o fato, é preciso apresentar o fato, mas um valor agregado, um contexto, uma informação adicional a simples informação factual. Ou seja, é quando o fato vem agregado de valor, utilidade pública e serviço, nem sempre o que é interessante é importante ao paladar midiático. O jornalismo vai fornecer elementos para o ser humano sair da sua letargia e transformar o mundo.

Qual o grande desafio do jornalismo?
O grande desafio não é passar a informação, o grande desafio é o que as pessoas vão fazer com a informação pra tornar a vida delas mais agradável, mais feliz, mais equilibrada, mais respeitosa, mais equânime da distribuição dos bens. Para além do valor notícia, o jornalismo tem a responsabilidade de construir uma sociedade reflexiva.

Por que você escolheu ser jornalista?
Eu queria ser sociólogo. Mas sociologia numa época de ditadura, filho de uma família migrante, pobre e sozinho em Brasília. Ia fazer jornalismo? Eu queria fazer cinema, depois queria fazer sociologia. Eu tinha na cabeça que eu tinha um chamado para o social, eu acho que se eu viesse ao mundo e não pensasse em transformar alguma coisa no mundo eu me sentiria indigno, era uma mentalidade da época. Outra coisa jornalismo se aproximava da escrita, eu sempre tive uma forte ligação com a escrita e com a poesia.

Nunca sentiu interesse por publicidade?

Não, no início não. Mas quando eu fiz mestrado eu senti necessidade em sondar o que havia de resposta com relação a seguinte pergunta: Por que os meios de comunicação têm uma capacidade tão grande para vender inclusive o que as pessoas não podem comprar, não tem como comprar e mais não dão conta de consumir? Durante o mestrado quis retratar a sedução para o consumo e no doutorado eu quis entender por que é tão difícil, usando os meios de comunicação, obter-se mudanças de conduta quando se trata de campanhas públicas, civismo, participação do cidadão na sociedade.


Mas e no dia a dia, como é ser jornalista?

O jornalista nasce e morre todo o dia, ele sofre de um complexo de Sísifo, ser jornalista é rolar uma pedra pro topo da montanha, e quando chega no topo da montanha ele tem que rolar a pedra de volta. Todo dia o jornalista não tem nada, ele sai e tem que voltar com um produto que é bom, que é nobre, que é coletivo e que ninguém tenha entregado. É pegar um produto que tenha valor social, lastro social, utilidade pública, que é um serviço e você democratizar aquilo todo dia, você quer uma profissão mais socialista do que essa? Ser jornalista não é igual a ser um dentista, e acho que é isso que diferencia tanto a profissão, o dentista abre o consultório, tem horário de almoço, fecha o consultório, e é isso, o jornalista não, ele tem que estar ligado o tempo inteiro. A vida de jornalista é uma meia vida, 90% da vida dele é para a profissão.

Quais lugares você já trabalhou?

Aí olha, eu já trabalhei, outra coisa você nunca sabe o que você vai escrever. Eu me preparei para ser jornalista crítico de artes plásticas, nunca consegui uma chance (risos). Mas me pergunta se não me mandaram fazer jornalismo econômico, ministério do planejamento, política, relações externas, comércio exterior, cobri Presidência da República. Trabalhei no Jornal de Brasília, duas vezes, já fui estagiário no Correio (Braziliense), na Veja, principalmente, 8 anos na redação do Globo, trabalhei cinco anos com Comércio Exterior em revistas da Fundação de um Órgão do Itamaraty, a única revista que divulgava o Brasil para o mundo em cinco línguas diferentes, trabalhei pra revista Ciência Hoje. Foi quando eu fiz concurso público para o Jornal Campus, em 1988.

Como se tornou professor?

Nunca pensei em ser professor e acho isso uma petulância. Eu acho que sou menos esquizofrênico como professor, o jornalismo é uma profissão muito dilacerante.

Qual a pessoa que mais gostou de entrevistar?

Puxa vida, em questões de gosto, Cora Coralina. A entrevista mais difícil foi com um antigo jurista Miguel Reale, era um jurista muito importante e respeitadíssimo na época e eu fui lá com o maior preconceito com aquele homem porque aquele homem tinha sido integralista e eu jovenzinho: “ Que coisa, vou entrevistar um fascista! ” Ele teve a maior paciência e conversou duas horas comigo.

Qual a maior diferença ou dificuldade que você nota desse novo jornalismo, chamado jornalismo 2.0, para o antigo jornalismo?

Esse jornalismo, sabe, jornalismo turbina, acho que é um jornalismo fast food, um jornalismo muito ligeiro, ele é importante, ele é necessário.

Qual o lugar que você gostaria de ter trabalhado, um sonho seu?

Sabe onde eu gostaria de ter trabalhado? [Na revista] National Geographic.



*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2º Semestre/2015.

“O cidadão que é o meu patrão”, diz Fernando Fraga, chefe de reportagem da Agência Brasil.

Por Daniel Marques Vieira e Rafael Marques Milhomens Tzu*


Fernando Fraga é jornalista formado pela faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, e atualmente atua como chefe de reportagem na Agência Brasil, subsidiária da Empresa Brasil de Comunicação (a EBC), estatal que possui em um de seus ramos é a conhecida TV Brasil. Em entrevista aos alunos da UnB, Fernando fala sobre a carreira jornalística, os contrastes entre o cenário há 30 anos e o atual, o trabalho na estatal e sobre os desafios da profissão.

Foto: Rafael Tzu
Primeiro algumas informações básicas sobre o senhor. Como você chegou ao jornalismo e qual é o papel que o senhor desempenha?

Meu nome é Fernando fraga, eu sou atual chefe de reportagem da agência Brasil e já tenho 37 anos de profissão, me formei no rio de janeiro na faculdade Hélio Alonso. O que me levou ao jornalismo foi o colunista Carlos Castelo Branco que tinha uma coluna no jornal do brasil, e foi o maior colunista político que esse país já teve. Eu era apaixonado pelo que ele escrevia, mas eu me dedicava a engenharia. Eu estudei para fazer vestibular para engenharia. Fiz, passei, cheguei a fazer 1 ano e meio, mas o “calculo 2” me derrubou ... E eu me interessei e falei: “acho que jornalismo é o caminho”. Passei e vivo a vida dedicada ao jornalismo até então.

Qual é a sua trajetória profissional até chegar na empresa atual?

Quando eu me formei, eu estagiei n'O Globo, estagiei num jornal que não existe mais no rio de janeiro chamado “O Dia”, que era um jornal popular tipo “Extra”, um jornal que se dedicava mais a parte policial, cidade, no rio de janeiro. Era uma escola, e hoje essa escola anda meio sumida, onde você aprende a perguntar, aprende os primeiros passos do jornalismo, aí fiz estágio lá e tal… Mas o rio na época, 1978, tava muito difícil o emprego, e eu já havia morado em Brasília, e resolvi vir pra cá. Me mudei pra Brasília em 79 e consegui emprego aqui no jornal de Brasília, depois no Correio Braziliense, e vim pra EBC, que naquela época se chamava “Empresa Brasileira de Notícias” e se transformou em Radiobrás e hoje é Empresa Brasil de Comunicação, mas também trabalhei em outros lugares, trabalhei na Folha de S. Paulo, trabalhei na Universidade de Brasília na assessoria do Cristóvão quando ele foi Reitor. Trabalhei em vários lugares, estiver em palmas e fiz um jornal em palmas, mas meu porto seguro sempre foi a Agência Brasil.

É comum ouvir de jornalistas que já estão na área que eles passaram por muitos lugares durante a carreira, a que fator isso se deve?

A nossa rotatividade é grande. Você começa fazendo editoria de cidade, esporte e tal, aí por você se interessa por outro assunto, por política, e economia, e conforme você vai ganhando experiência, outros jornais vão se interessando por você e então compram o seu passe. ou você muda, briga... Hoje o jornalismo está um pouco mais calmo, mas na minha época a mudança era maior.

Mais calmo?

Mais calmo sim. Primeiro que tem poucas vagas. No meu tempo se eu era um bom cara que, por exemplo, trabalhava para O Globo e a Folha pagava mais então você ia pra lá. Era uma rotatividade nesses termos. Haviam questões salariais, haviam questões de você fazer um trabalho que você se identifica melhor. O jornalismo tem dessas coisas que eu não sei se em outras profissões tem essa rotatividade. Mas no meu tempo no jornalismo a gente mudava mais.

O senhor acha que com o passar do tempo isso tem diminuído?

Eu vejo que sim. Essas mudanças não são mais tão constantes assim. Hoje um jornalista consegue ficar cinco ou seis anos em um jornal. Antes eles não ficavam anos. Até mesmo por que queria mudar. O cara tava no jornal e queria fazer revista… Hoje tem muito essa parte das redes sociais, blogs, tudo… Antes a gente ou fazia jornal impresso, ou rádio, ou assessoria.

Qual a diferença entre trabalhar em uma empresa privada e uma empresa pública como a EBC?

A empresa privada é dependente do anunciante. Não que isso possa interferir muito, mas as vezes pode interferir. Se uma grande indústria é uma grande anunciante e tem algo referente a ela, às vezes pode ficar um pouco complicado você fazer denuncias. Mas não é isso. O jornalismo dos grandes jornais tem focos e interesses muito mais com o dia-a-dia da economia, da política… Já nós aqui da Agência Brasil, por ser público, focamos mais no cidadão. Ele que me paga. O cidadão que é o meu patrão, então eu tenho que trabalhar pra ele. No setor privado o patrão dele é o jornal, então ele trabalha pro dono do jornal. Aí cada um tem sua linha editorial, suas preferências políticas e econômicas. Mas o jornalista tem que pautar em uma coisa, seja público ou privado: ética. Ele tem que ouvir os dois lados. Tem que ser ético. Ele não pode ser vendido. Ele não pode fazer porque ganha mais ou ganha menos. Se ele se sentir incomodado ele pede e vai embora.

Falando sobre ganhar mais ou menos: é verdade que o jornalista ganha pouco?

Essa é aquela história do copo meio cheio ou meio vazio, né? Alguns acham que o copo ta mais vazio e outros acham que o copo ta mais cheio. Depende do mercado. Tem época que o mercado ta mais favorável e você ganha bons salários, e tem épocas como agora, meio em crise, que você tem demissões e não tão oferecendo tanto. Demitem alguém com o salário de quinze mil e contratam dois de sete. Acho que toda profissão tem disso. Você vai desenvolvendo seu trabalho e o dinheiro vem como consequência de seu trabalho. Acho que não tem que pensar “vou ser jornalista pra ganhar muito dinheiro”, ou “vou ser juiz pra ganhar muito dinheiro”. Tem que ser “vou ser juiz por que eu gosto, por que é uma profissão que eu vou servir ao cidadão, servir ao meu país.” O jornalista é do mesmo jeito.

Talvez um engenheiro em início de carreira possa ganhar mais do que eu. Confesso que hoje eu não sei. Acho que com o tempo você vai ganhando um salário razoável que dá pra criar seus filhos, ter uma casa…

Então o salário não é uma preocupação tão pertinente?

A mim não. A minha preocupação nunca foi ganhar dinheiro. Acho que eu preciso de dinheiro para viver bem, pra comer, pra escola e essas coisas. Mas eu não me preocupo com isso não.
Se você é recém-formado com certeza vai “ralar”. É uma profissão que no início não tem uma base. Eu acho que o salário base de jornalista pelo sindicado é de dois mil. Mas depende. Eu com trinta anos de produção dois mil é pouco, agora pra quem ta começando, se você é solteiro. Na verdade todo mundo reclama que ganha pouco. Ninguém acha que ganha muito.

Se o senhor tivesse algo a dizer àqueles universitários que ainda estão com dúvidas, o que seria?

É aquele negócio que eu falei. Pra ser jornalista, médico, engenheiro você tem que gostar do que ta fazendo. Você tem que se dedicar àquilo ali, ler bastante, se atualizar. E claro: ser ético. Seja engenheiro ou jornalista.
É uma profissão sacrificante. Você não tem hora ou dia. Não tem sábado ou domingo. Com o tempo se você quer aquilo de repente você tem que ir lá pro interior do Mato Grosso, por uma questão indígena. Você não sabe se vai dormir bem ou se não vai. O jornalismo não tem ponto ou horário certo. Você entra às oito, por exemplo e não sabe que horas que vai sair.

Essa vida é como o senhor imaginava quando estava ainda cursando?

No meu tempo era muito mais complicado porque as regras sindicais não eram tão organizadas como hoje. Hoje você tem um sindicato mais ativo. A gente não tinha isso. A gente trabalhava doze a catorze horas direto.
Mas é aquele negócio. Depende do emprego que você vai ter. Onde você está empregado. Porque tem gente que se forma e quer ser assessor de imprensa, então vai ter rotina, vai ter horário pra chegar, horário pra reunião com o chefe, pra falar com imprensa. Mas o jornalismo do dia-a-dia o cara chega no congresso 10 horas da manhã em um dia que tem votação e não deve sair antes de meia noite. E se tiver sorte ele almoça.
Notícia não tem hora pra acontecer, né? Você não tem hora marcada. O médico sabe a hora que vai fazer a cirurgia dele, sabe a hora que vai receber o paciente. Jornalista não sabe a hora que o avião vai cair, ou que horas a ministra vai dar uma declaração, não sabe a hora em que a economia vai se movimentar. Você tem que estar na disposição.

Parte da crise do jornalismo se deve além da crise econômica também à crise do digital. Você acha que o digital afeta muito o trabalho do jornalista? Há saída pro jornalista além do digital?

Eu não sou um estudioso desse tema, mas não acho que o jornal de papel vá acabar, assim como o livro não vai acabar. Por mais geringonças eletrônicas que existam o “tesão” está em você pegar o jornal e você abrir e ler, você pegar um livro e ler. Eu acho que tem espaço pra todo mundo. Aí é uma questão empresarial. Se o dono de um jornal acha que ele pode ter uma redação com menos gente por que esse jornalista pode atuar, editar, ter um blog, cuidar do twitter, olhar o Facebook, fazer dez coisas ao mesmo tempo… tudo bem. Mas você tem que ter uma pessoa pra cada coisa. Não é possível um cara ao mesmo tempo publicar no twitter e escrever uma matéria de economia e ir lá na rua fazer um entrevsita. Vai ter mais pessoas. Alguém pra mecher no twitter, alguém pra fotografar. Já se tentou varias vezes isso [juntar as funções]. Já se tentou “o próprio jornalista fotografa”. É difícil. A não ser que o cara seja um correspondente em algum lugar. Aí é com ele. Se ele é um frelancer aí ele faz tudo e vai vender a matéria. O freelancer faz isso. O cara ta lá na Hungria pra ver os refugiados e tá com a maquina dele pra tirar a foto e fazer a matéria.

Como funciona o freelancer dentro do jornalismo? Eu posso simplesmente fazer apurar um acontecimento e vender?

Se alguém quiser comprar sua matéria. Você é um jornalista registrado que pode fazer isso, tem um bom texto e uma boa história, porque a revista “rolling stones” não iria comprar? Ou o Jornal O Globo não pode comprar? Depende da política do jornal.

Qual é o método que jornalista deve seguir para vender sua matéria como freelancer? Basta chegar no veículo e oferecer?

Se for um assunto bom. Se ele tiver interesse em publicar. Agora tem que ser uma coisa boa, novidade, de interesse público. Tem vários correspondentes pelo mundo, nessas crises de guerra, que são “freela”. Se arrisca e até às vezes se faz um contrato de freela “fixo”. Eu nunca fui freela, apesar de já ter feito um freela para um jornal ou uma revista.

Qual foi a maior dificuldade que o senho enfrentou no jornalismo?

O dia-a-dia é a maior dificuldade. Tem dia que você está bem, tem dia que você está mal. E eu acho que a maior dificuldade de todo trabalhador é o medo do desemprego. Um trabalhador, seja ele quem for, tem medo disso. “Poxa! Posso estar desempregado a qualquer momento.” Tenho uns amigos que falam assim: “Nós jornalistas nós estamos sempre demitidos.” Na nossa profissão nós estamos sempre demitidos. A qualquer momento, a qualquer hora a gente ta sempre demitido. Então o jornalista tem que estar preparado pra isso. No geral todas as dificuldades são do dia-a-dia. Acho que se você faz o que você gosta você supera as coisas.



*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2º Semestre/2015.

“O mercado é sempre saturado, mas não eternamente fechado. Não tenha medo dele. Encare-o.”

Erika Blayney se formou na Universidade Federal de Goiás em 2001. Passou por alguns trabalhos no Brasil e no exterior, e atuou no rádio, impresso e TV. Ao longo desses períodos já passou por demissões em massa. E atualmente é repórter na TV Band.

Por Neyrilene Raquel e Priscilla Miranda*



Foto: Altair Santana

A universidade te preparou para o mercado?
Em partes. O objetivo principal de uma universidade federal não é, necessariamente, preparar o aluno 100% no que se refere à prática diária do jornalismo, mas lhe permite uma reflexão teórica sobre essa prática e mostrar um pouco do que acontece nas redações. As tecnologias mudam e, nem sempre, dispomos dos melhores e mais atualizados computadores, máquinas fotográficas e câmaras para trabalhar.Dica: o importante é aliar o conteúdo teórico à prática nas salas de aulas e estágios nas empresas de comunicação, de assessoria de imprensa e demais órgãos e instituições de interesse.

Qual foi seu primeiro contato com o mercado de trabalho, teve dificuldade, quais?
Meu primeiro contato com o mercado de trabalho foi antes mesmo de finalizar o curso de jornalismo, a contragosto de muitos professores. Comecei como estagiária, informalmente, na época em que estágios, acreditem, eram mal vistos e, pra piorar, irregulares. Enquanto a universidade enfrentava uma greve atrás da outra, eu aproveitava para me dedicar ao que já via como emprego. No final do curso, quando a última greve que enfrentei como universitária acabou, já era editora e âncora de um dos principais jornais da rádio onde eu trabalhava. Depois do diploma, veio à efetivação do emprego logo em seguida.

Você traçou metas na universidade, teve mudança ao longo do tempo?
Gostaria de ter traçado metas profissionais durante a faculdade, mas as opções eram tantas e a gente é tão novo, durante esse período, para decidir exatamente o que quer para o futuro. O melhor que pude fazer foi experimentar todas as oportunidades que me apareceram para me ajudar a decidir rumos futuros, ler o máximo possível, aproveitar aquela biblioteca maravilhosa da universidade, fazer amizades que perduram o tempo e a distância, e, finalmente, não deixar de sonhar.
Por quais veículos já passou?
Vários. Para citar alguns:TV Band/DF: Reportagem e edição de texto.TV Justiça-STF/DF: Apresentação.STJ/DF: Reportagem.Rede TV/RN: Edição de texto.Rádio 730 AM/GO: Reportagem, apresentação e edição.Jornal de Brasília/DF: Reportagem. Jornal Brazilian News/Reino Unido: Edição e revisão de texto. Jungle Drums/Reino Unido: Reportagem e edição.
Sofreu com a demissão em massa?
Você pode até não ser demitida, mas sempre sofre com as demissões dos colegas nessas ocasiões. É um momento tenso, ríspido, doloroso. Já passei por vários cortes de pessoal.
O primeiro foi uma perseguição política em resposta à oposição baseada em fatos e documentos que fazíamos. Conseguiram na justiça o direito de interditar a emissora por umas sete vezes. O comercial quebrou. A solução foi acabar com o jornalismo político, opinativo e o mais próximo da tão sonhada liberdade de imprensa que já vi. Todos os jornalistas foram demitidos. Foi traumático, mas recebi a rescisão e fui estudar no exterior. Outro jornal em que trabalhei fechou as portas porque era sustentado com dinheiro da corrupção. Quando o escândalo veio à tona, a solução foi acabar com o jornal. O dono sumiu e muita gente nem recebeu pelo trabalho que havia feito. É importante salientar que o jornalismo é uma profissão em crise, por vários motivos. Entre eles, às novidades tecnológicas, a facilidade de se distribuir informação (todo mundo pensa que sabe fazer uma reportagem de tv, escrever e publicar no Facebook, tirar uma fotografia jornalística). Tudo isso leva a uma desvalorização tamanha do profissional de jornalismo, o qual ganha cada vez menos e é substituído ou mesmo descartado facilmente no mercado.

Qual é a sua opinião sobre a desvalorização do diploma, já que não é mais obrigatório para exercer a profissão, é bom ou ruim?
Desvalorização nunca é bom. É péssimo. Embora não acredite necessariamente que um diploma específico em jornalismo seja mesmo imprescindível para o exercício da profissão, a exigência do documento promove uma forma democrática de entrada nesse belo ofício. Não acredito nesses argumentos apresentados para a queda da exigência, bem como não defendo que só a faculdade seja o suficiente. Sou a favor de que os requisitos básicos fossem, na verdade, uma graduação em áreas variadas, como Ciências Políticas, Relações Internacionais, Economia, etc, mais uma pós-graduação em Jornalismo para poder aprender a linguagem da Comunicação.



*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação da UnB, 2º semestre/2015.

“O jornalismo sempre esteve em crise”

A jornalista Raquel Morais, graduada pela UnB, trabalha no G1 DF desde 2012, quando foi efetivada após um estágio. Raquel falou da sua percepção do mercado de trabalho na atualidade, as principais mudanças do jornalismo, sobre a apuração da notícia no jornalismo online, da falta de rotina na profissão e as perspectivas para o futuro.
Por Felipe Moura e Pedro Henrique Gomes*



Conte um pouco mais sobre você e o que faz ...
Tenho 25 anos e minha experiência profissional praticamente se restringe ao G1 DF. Entrei como estagiária, em 13 de maio de 2011, e fui efetivada em 18 de dezembro de 2012. Diferentemente do que propõe o programa de estágio da Globo, não passei por nenhuma outra área – desde o início meu chefe simpatizou com meu trabalho e quis me contratar. Isso é muito bom, mas também tem um lado ruim, já que não pude conhecer outros setores. Mas, de qualquer forma, posso dizer que sou bastante feliz. Sou exatamente o que “gostaria de ser quando crescesse”, sabe? Escrevo. E para o maior portal do país.
Sobre o dia a dia no trabalho: faço edição, pauta e reportagem. Oficialmente há meu chefe e seis repórteres, mas na prática é como se eu fosse a subeditora pela manhã. Trabalho de 6h às 14h (na teoria, porque hoje, por exemplo, mesmo sendo bem mais tarde ainda estou trabalhando). Nesse horário, somos eu, uma estagiária e duas repórteres. Entro antes de todo mundo, atualizo a página (chamando as matérias novas etc.), escrevo notinhas, distribuo as pautas factuais (além de já ter enviado por e-mail as especiais para aquele dia), edito o que aparece, fico em contato por telefone e chat com o pessoal de SP (onde fica a “chefia”/”sede” do G1), negocio chamadas com o pessoal da TV, resolvo pepinos com assessores e faço reportagens especiais. É bastante coisa mesmo e é bem cansativo, mas eu sou extremamente agitada/neurótica/elétrica, então faz parte do meu perfil. Aliás, eu estou na função justamente por isso, porque tenho esse perfil. As outras pessoas produzem menos, são menos ágeis etc.
Qual a sua percepção do mercado de trabalho no momento?
Eu nunca tive outro emprego e, antes da Globo, só havia passado por um estágio, então creio ter pouca noção do mercado. Porém, claro, eu sei – tanto pelas notícias, quanto pelos relatos dos colegas, pelas discussões sindicais e pelo momento econômico – que o momento é ruim. Acho também que o jornalismo sempre esteve em crise, sabe? Independentemente do contexto. Pelos estudos/pesquisas da época de faculdade, sempre vimos como uma profissão que constantemente precisava se reinventar. Quão mais polivalente, mais versátil, melhor. E, no nosso caso, no trabalho, por exemplo, é o mesmo profissional quem cuida de tudo: faz o texto, tira a foto, sugere título. E faz tudo isso várias vezes ao dia, de vários textos.
Quais as expectativas para o mercado a médio prazo?
Não sei. Não me parece um bom momento. Aparentemente há mais chances de as pessoas perderem do que conseguirem emprego, por exemplo. E a conquista de uma nova vaga não necessariamente é representa estar bem empregado, porque os salários oferecidos são baixos, as jornadas são longas e “sofridas” e por aí vai.
Qual a principal mudança ocorrida em comparação com a década passada?
Na década passada já tínhamos internet, mas não se fazia jornalismo como agora, né? A ideia era jogar o texto do impresso na rede, como se a web fosse só mais um espaço para fazer aquele material girar. A coisa mudou bastante. Primeiro: a gente já sabe que o texto do impresso não funciona no online. Segundo: a gente tem possibilidade de incluir super fotos, animações e vídeos, o que torna a leitura mais atraente e interativa. Terceiro: a gente tem internet no celular! E isso, acho, é o responsável pela maior mudança. Agora, mais do que nunca, você tem informação em qualquer lugar. Você lê notícia (ou pode ler) não só no trabalho e em casa, mas até no trânsito. Se parecia uma revolução não precisar da nova tiragem ou do telejornal você entrar em um site pelo computador e ler o que te interessa, imagina agora que não há limitação de lugar. Se você está em uma fila, à espera de consulta ou qualquer coisa, é só pegar o celular e navegar. Se há congestionamento, o mesmo. Isso realmente me parece revolucionar as coisas.
O que o mercado digital pede do profissional?
Versatilidade, agilidade, criticidade, atenção, dedicação... Uma série de coisas mesmo. Você tem de ser rápido, tem de ser crítico e ter um olhar acurado para as coisas, não pode errar de forma alguma, tem de ser detalhista e perfeccionista, tem de ter habilidade para no intervalo de uma hora entrevistar o governador no Palácio do Buriti e então uma pessoa que perdeu tudo em um temporal...
Qual a principal dificuldade enfrentada pelos jornalistas hoje em lidar com os meios digitais?
Imagino que entender o funcionamento, a parte técnica, mesmo. A gente depende de uma série de equipamentos, aplicativos podem nos ajudar muito... Então conseguir compreender o que é e para que serve é essencial.
Em média quantos clicks uma noticia do G1 DF consegue?
Não existe uma média por notícia, porque isso é realmente variável. Temos aquelas que ficam chamadas só na nossa página, as que também vão para a home www.g1.globo.com, as que também aparecem em editorias “específicas” (economia, educação, ciência e saúde, música etc.) e as que também vão para a Globo.com. Ah, tem ainda as que são chamadas no Facebook e no Twitter. Naturalmente, em quanto mais locais a matéria tiver chamada, mais leitura ela tem. E há matérias estritamente sobre DF, como falta de luz, ou de cunho “humano”, que ultrapassam isso, como a família de seis dedos que torcia para o Brasil na Copa. Matérias muito locais tendem a ter menos leitura.
Quais as estratégias para atrair o leitor a clicar na notícia?
Há uma série de coisas, realmente, mas não posso comentar todas. O que acho que é básico é o que a gente percebe até empiricamente: blocos longos de texto cansam. Então, ter boas fotos e vídeos, destacar aspas e, claro, ter sempre boas histórias (brinco que temos o tripé quantidade, qualidade e variedade) são posturas importantes para atrair leitura e manter leitores.
O jornalista hoje precisa entender de administração de redes sociais virtuais como Facebook e Twitter?​ Qual o grau de importância disso? ​
Acho que nem todos precisam, mas fato é que informação empodera o profissional. Saber fazer e mexer, além de entender o processo, é importante. Outra coisa que acho que faz a diferença: entender o que esses espaços significam e o quanto sua exposição neles pode te afetar. Embora sua conta seja uma ferramenta pessoal, você não deixa de ser jornalista ao se posicionar ali. É a mesma coisa com o policial que dirige bêbado no dia de folga, sabe? Não dá para alegar isso de também ser uma pessoa comum.
O G1 DF trabalha com jornalismo de dados?
Sim.



É característica do online a informação com extrema rapidez, como é feita a apuração? Ela é comprometida?
Eu acho que uma apuração só fica comprometida se o jornalista não for bom profissional – e isso para qualquer plataforma. Temos as mesmas ferramentas que todos: telefone, e-mail, entrevistas ao vivo, coletivas. A diferença é que a gente pode dar na hora que quiser (nem tudo é publicado no dia que se produz, por exemplo). A gente não precisa esperar ou cortar ou prolongar ou nada. Quando é algo imediato, temos de ter foco e faro para encontrar o lide da história e não ficar perdendo tempo. Acho que isso vai de perfil e treino. E acho que saber fazer isso é vantajoso em qualquer plataforma, viu? Imagina, na TV as pessoas recebem a informação horas antes, mas precisam segurar... No impresso, deixam para o dia seguinte... No nosso, não é preciso esperar. Isso é ótimo, né? E a gente não tem limite de tempo/espaço, nem precisa “enrolar” porque tem buraco no jornal/telejornal.
Você possuí experiência em jornalismo impresso? Como encara essa mudança da profissão e a crise do impresso?
Pouca [experiência]. Acho que a mudança é natural, embora não necessariamente boa. E não sei exatamente como ver essa “crise”. Não acho que ele vá acabar, mas sim se reinventar, que nem aconteceu com o rádio. A sociedade muda, os hábitos mudam, a cultura muda... É natural que o modo de buscar informações também.
Existe espaço na redação, especialmente daqui de Brasília, pra quem não tem interesse nas coberturas tradicionais, como política e economia?
Eu acredito que existe, sim. Tenho um chefe perfeito neste aspecto. Agora, como disse, não dá é para você querer fazer só uma coisa. Tem de ser polivalente. Se a sua sugestão efetivamente for uma boa pauta, é aceita.
Quais as dicas que você pode dar aos alunos que estão entrando agora na Universidade? Como eles devem se preparar para essa longa jornada? (Péssimo trocadilho, eu sei rsrs).
Minhas sugestões não fogem ao comum, mas mais que nunca sei que tudo isso é importante: entender história (é uma pena como muitos jornalistas não têm a menor ideia sobre conhecimentos gerais), ter bom texto (quem sabe escrever bem se dá bem em qualquer plataforma), ler bastante, ser crítico, ser humilde (é comum ver gente com pouco tempo de estrada querendo escolher o que faz, achando que é bom demais para isso ou aquilo), ser rápido, ter capacidade para se adaptar às mais diversas situações/fontes/colegas, gostar muito de trabalhar (e jornalismo vicia, viu?), ser honesto/ético e reconhecer falhas, aceitar críticas, saber ouvir todo mundo (as pautas surgem de todas as formas, até na portaria da academia) e entender que a gente precisa ganhar o jogo todo dia. Não basta ter uma, duas, três grandes histórias. A cada dia você precisa de uma muito incrível, então não se contente por ter conseguido algo muito legal uma vez. Aliás, acho que essa sede/faro/paixão pela notícia, gostar de ouvir as pessoas e de contar as histórias delas, faz muita diferença!





*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação da UnB, 2ºSemestre/2015.

“A sociedade do espetáculo e do consumo transformaram o jornalismo”

Cláudia Nonato, doutora em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), discute sobre as transformações pelas quais o jornalismo tem passado e como os novos profissionais devem se adaptar a essa nova fase.

Por Gabriela Brito e Gabriela Romano*


Em seu artigo "Do impresso aos blogs: a busca dos jornalistas pela liberdade de expressão em novos métodos e processos produtivos" você menciona a dependência de jornalistas aos anúncios para manter seus blogs funcionando, o que às vezes os impede de expressar sua verdadeira opinião, ou sua opinião completa. Como garantir que ela não se dobre às vontades exteriores?

Não há como garantir. Essa é uma atitude que cabe diretamente ao jornalista, que tem a opção de se dobrar ou não aos anunciantes, mesmo sabendo do custo dessa decisão. Vai depender muito do posicionamento ideológico do profissional.
 
Você acredita que no futuro próximo o webjornalismo superará o jornalismo impresso, ou que ainda haverá espaço para uma simbiose?

Em relação aos anunciantes, o webjornalismo já superou o impresso, pois estes migraram para a internet. E, embora estejamos acompanhando o fechamento de diversos veículos impressos, acredito que ainda haverá espaço para os dois. Mas o jornalismo impresso precisa se adaptar e se reinventar, procurando pautas e análises diferenciadas daquelas publicadas na web. Mais aprofundadas, talvez.  


Você também menciona, no artigo, que a maioria dos jovens aspira ao cargo de repórter no campo de cultura e entretenimento. Como isso se reflete no blog, e por que um enfoque nessas áreas?

Os jovens que ingressam hoje no jornalismo têm uma visão diferente da profissão; na minha época, fazíamos jornalismo por razões humanistas, queríamos mudar o mundo, ajudar a fazer uma sociedade mais justa. A sociedade do espetáculo e do consumo transformaram o jornalismo, e hoje a expectativa dos jovens é outra; buscam o mundo das celebridades, da fama e (por que não?) do dinheiro. E as áreas de cultura, entretenimento e esporte são as que mais propiciam isso, ou melhor, são as que têm mais visibilidade. Como hoje as redações são enxutas é muito difícil arrumar emprego nessas áreas. Os empregos estão nas assessorias de imprensa, que nem sempre agradam ou trazem a visibilidade necessária. Nesse cenário, os blogs apareceram, na minha pesquisa, como uma opção, tanto para ter o prazer de escrever sobre o que gosta, quanto para divulgar o [próprio] trabalho.

Com a Internet, o financiamento coletivo (crowdfunding) tornou-se tendência. Qual sua opinião sobre esse tipo de ação coletiva para manter vivos blogs jornalísticos? Acredita ser a solução mais prática?

O crowdfunding foi, na verdade, uma solução emergencial que acabou se transformando em alternativa de sobrevivência para alguns jornalistas e blogs. Eu acho que o método é válido, mas ainda não é suficiente para a manutenção de um veículo. Geralmente, os profissionais que utilizam o financiamento coletivo possuem outros empregos, fazem freelancer ou possuem outra fonte de renda.

Qual deve ser a atitude do jornalista hoje diante da convivência dessas duas realidades (impressa e virtual)?

O jornalista, assim como profissionais de outras áreas, deve se adaptar às duas realidades, porque o mundo trabalho exige hoje essa polivalência. Um mesmo texto é publicado no online, no impresso, tem que fazer o podcast, vídeo, fotografia...aqueles que não se adaptaram a esses novos tempos, estão fora do mercado de trabalho. 

O jornalismo é uma profissão que ainda possui espaço, ou está fadada à morte, já que a Internet possibilitou a qualquer um expressar sua opinião e escrever o que bem entender (mesmo que sem necessariamente checar fatos)?

Eu acho que nós já passamos da fase de achar que o jornalismo vai acabar. Está comprovado que esses profissionais estão sempre se reinventando, acompanhando as mudanças, que são recentes e ainda estão acontecendo no mundo do trabalho. Esse acesso do cidadão comum aos meios de comunicação foi outra grande mudança: pessoas comuns começaram a pautar os jornais, participar da notícia, criticar e elogiar diretamente as matérias, e isso assustou um pouco. Mas hoje as pessoas já se habituaram à internet, e sabem selecionar quem tem credibilidade e preparo para publicar notícias.

*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação da UnB, 2ºSemestre/2015.