“Eu sempre fui fotojornalista”

Fotógrafo Allan Marques, da Folha de S. Paulo, defende que modelo de negócios do jornalismo impresso está em crise

Por Amanda Corcino, Giórgia Plauto e Isadora Prado*



Conte um pouco da sua trajetória dentro do jornalismo: por que escolheu jornalismo? Arrepende-se de alguma coisa?Eu sempre fui fotojornalista. Comecei a trabalhar em 1992 como repórter fotográfico antes de ter a graduação em Comunicação Social. Quando eu comecei [a trabalhar] eu tinha 19 anos, mais ou menos a idade de vocês. Já comecei na área de fotojornalismo e depois eu fiz o curso de graduação. Então, para vocês terem uma ideia, na época em que eu tava dando os primeiros passos na área de fotojornalismo, meu curso era Administração de Empresas. Então não tem uma história de por que eu virei fotógrafo, foi uma escolha anterior. Eu venho de uma família de jornalistas, meus irmãos são fotógrafos, então desde pequeno eu comecei a fotografar, aos 10 anos comecei a usar câmera profissional. Com 19 anos, já estava na faculdade de Administração e precisava de um estágio para ganhar dinheiro e me chamaram para trabalhar dentro de um laboratório de fotografia. Foi dentro do laboratório de fotografia que eu aprendi a arte do fotojornalismo, porque esse laboratório era de um jornal grande. Então foi esse o processo. A minha entrada no fotojornalismo não passou pelo jornalismo, passou pela tradição de fotografia. Aí depois do curso de Administração eu decidi fazer Jornalismo para entender as outras nuances da profissão, porque fotojornalismo é apenas um segmento. Dentro do jornalismo você tem uma área de trabalho gigante. Aí acabei fazendo um master na minha área de Administração, que é uma área de gestão estratégica pela Fundação Getúlio Vargas e agora tô aqui na Academia.


Como você começou a trabalhar na Folha de S. Paulo? Há quanto tempo você trabalha lá?Comecei a trabalhar na Folha em 1997, tem bastante tempo. Fui convidado a trabalhar na Folha por causa do meu trabalho anterior. Trabalhei no Jornal de Brasília e n’O Globo. A Folha tem um processo de seleção, tem umas provas, mas primeiro fui convidado por causa do meu trabalho. Comecei em 1997 e de lá até hoje.


Como é sua rotina de trabalho na Folha?O horário dentro do jornal é uma coisa muito complicada. Nos outros meios de comunicação, você tem um regime de horários que é bem respeitado, mas dentro do jornal não tem esse controle tão rígido, então eu vou acabar trabalhando o tempo que o jornal me convocar. Eu começo nove horas e vou até o fechamento do jornal, por volta de oito, nove horas da noite. Mas às vezes viro, às vezes tenho que trabalhar mais. A rotina começa com a pauta do dia. A gente começa a trabalhar por volta de nove horas, mas antes disso a gente recebe a pauta e já sabe as diretrizes que o jornal vai tomar naquele dia: já sabe o que vai acontecer no Congresso, no Palácio, e aí você é direcionado pra algum desses. Como eu trabalho pra sucursal em Brasília, meu trabalho de fotojornalista é ligado à pauta mas desligado do repórter, porque a produção da fotografia está muito centrada na agenda oficial tanto do Palácio do Planalto quanto dos outros poderes, então o que a gente trabalha, a produção de imagens, a criação de um discurso fotográfico, já é baseado na pauta, então não existe essa ligação direta com o repórter. A ligação é via redação. Mesmo assim a gente acaba conversando porque é muito bom o debate entre o que vai se escrever e o que vai se publicar como imagem.


Você está satisfeito com a sua rotina de trabalho, com o meio em que você está hoje? Tem perspectivas de estar em outro lugar no futuro?Sim [sobre estar satisfeito]. O grande lance do jornal é que é de consumo imediato, ele é um meio que se extingue depois de sua leitura, então a minha ideia é vir para a Academia agora porque aqui existe uma pesquisa mais aprofundada e aí você consegue desenvolver projetos que sejam mais consistentes. Mas o jornal me dá muita satisfação, até porque o papel social do jornal que é muito importante. Por ele ser de consumo imediato, ele transforma a sociedade de uma forma mais forte, mais intensa do que as pesquisas na Academia, que são de gestão mais longa. São dois processos diferentes. Mas isso sempre me trouxe satisfação, tanto lá [no jornal] quanto aqui [na Academia].


Muitas vezes nós como futuros jornalistas vemos de outras pessoas uma visão muito pessimista do futuro na profissão, o que pode desmotivar muita gente. O que você tem a dizer sobre isso?Cada pessoa tem uma forma de tratar a vida diferente. Se algumas pessoas falam de forma pessimista sobre a profissão ou a carreira delas, é uma questão de valor deles. Você não pode trazer isso para você. Primeiro porque você não é ele/ela, vocês são diferentes. O que você vai alcançar é diferente do que ele alcançou. Você pode ser maior ou menor do que ele, vai depender de você. A universidade vai te preparar para fazer coisas diferentes. Você gosta de contar histórias? Você pode ser uma escritora. É só desenvolver a técnica para escrever para livro. O jornalismo é só uma ferramenta que vai te dar para você se desenvolver no mundo. Se as pessoas estão te passando uma visão negativa, essa insatisfação é uma coisa pessoal delas. É claro que hoje em dia existe uma crise gigantesca no país, não só nos meios de comunicação, então você tem que estar preparada para isso. Você se prepara de várias maneiras.


Qual é sua visão em relação a esses comentários, esse cenário que surge de que o jornalismo está passando por uma mudança de modelo do impresso para a Internet?O que está em crise é o modelo de negócios. O modelo de negócios hoje no impresso está indo pra um lugar que não vai existir no futuro. Hoje a gente se comunica muito mais com telefone celular, smartphone é a coisa mais importante que existe hoje na nossa vida. O modelo de negócios está em crise, mas isso não significa que o jornalismo esteja em crise. Você tem que se posicionar. Se você quer produzir matérias com maior densidade, com maior profundidade, com maior inserção na sociedade você pode fazer isso pela Internet. A comunicação é a coisa mais importante que existe na nossa sociedade contemporânea. Então se você se torna um especialista nisso, você tem emprego sempre. E outra coisa: jornal é uma coisa, TV é outra, rádio é outra e Internet são todas as coisas juntas. Você está pensando em morar fora? Eu passei um tempo fora em Londres, foi a melhor experiência da minha vida.


Quanto tempo você passou em Londres? Como foi a experiência?Fui aprender inglês. Estava ainda na idade de vocês, uns vinte e poucos anos e fui aprender inglês, que é o idioma mais importante. Sugiro que vocês aprendam inglês, espanhol, francês e mandarim. Passei pouco tempo em Londres, quatro meses, mas foi o suficiente. Passei em Londres primeiro mas fui conhecer a Europa. Viajar acho que é a coisa mais importante do mundo pro jornalista.


Que dicas você dá para quem está começando no jornalismo?Manual de introdução não existe, cada pessoa é diferente. As coisas que eu fiz não são as coisas que todos vão fazer, cada um age de maneira diferente. O básico é vocês não saírem da universidade sem o conhecimento adequado, e esse conhecimento não é só de ferramentas, é o conhecimento de você pensar e saber se posicionar perante as coisas que vão acontecer, porque você precisa ter ideias, precisa defender as próprias ideias. Pra você fazer esse tipo de defesa, você precisa ter o domínio dos conceitos e do conteúdo. Então a pessoa tem que ter uma capacidade forte de se posicionar perante o mundo. Acho que é a única coisa, mais genérico, que eu posso passar pra vocês. Cada um de vocês vai se comportar diferente.


Qual é a visão dos grandes veículos de comunicação como a Folha em relação a mídias colaborativas como a Mídia Ninja e sobre a questão da imparcialidade jornalística?Essa história de que existe imparcialidade não é verdade. Todo mundo que está se posicionando em uma manifestação, na vida como um todo, tem uma visão. Só por ter essa visão já é parcial. Isso de imparcialidade de qualquer meio é falacioso. O meio de comunicação é um meio de mediação: você pega um pedaço da notícia e leva para consumo do leitor. O que a Mídia Ninja faz é divulgação do evento inteiro, streaming, não havia mediação. As pessoas iam lá e assistiam o tempo que quisessem. É uma outra forma de comunicação. E quem financia os grandes veículos de comunicação é a área do dinheiro, da publicidade, do marketing, das vendas. Mídia Ninja também, alguém os financia. Então se ele é financiado por alguém, ele tem uma linha editorial. Ele tem uma visão, não existe essa imparcialidade. Quando você põe a assinatura em um coletivo, você tira a responsabilidade de quem tá fazendo a captura do fato porque a responsabilidade de uma cobertura tem de ser individual. Você tem que ser responsável pelo o que você tá dizendo. A Constituição não permite anonimato. Bota [a responsabilidade] no cooperativismo e quem é responsável por isso?


Como fotojornalista, quais foram os maiores desafios que você teve que enfrentar?Para o fotojornalista, o desafio é diário. Porque a gente não consegue fazer matéria de casa nem da redação. A gente é o cara da linha de frente, nós somos a ponta da lança da guerra, aquela primeira coisinha que chega no evento. Todo dia é um desafio, porque foto é furtiva, se você não fizer ela escapa e não tem como recuperar. Texto consegue. Então é uma coisa que você tem que tomar muito cuidado. O desafio é diário. Eu já participei de coberturas bem tensas. Não existe fotojornalismo fácil.


Você pode dar exemplos dessas coberturas?Qualquer invasão que exista polícia e manifestante é tenso. Porque você pode tomar um tiro, uma facada, uma pedrada, você pode se machucar ou até morrer. Tivemos um exemplo disso em fevereiro do ano retrasado do cinegrafista Santiago Andrade que foi morto durante uma manifestação. Ele estava filmando e foi acertado por um rojão pelas costas, foi um manifestante que o matou. Todas as manifestações são complicadíssimas e aqui em Brasília o que mais tem é manifestação. Então é complicado.A cobertura da queda do avião 1907 da Gol foi um resgate que a gente teve que fazer, que foi feito pelo Exército, pelas Forças Armadas e as polícias, foi feito no meio da Floresta Amazônica. Pra fazer esse tipo de cobertura, eu tive que ir para lá no meio da floresta, então teve um problema de logística forte e isso é muito difícil para um repórter fotográfico. Se você está trabalhando aqui perto do escritório, se você tiver algum problema, você tem um escritório. Lá não, você está sozinho no meio do mato.O terremoto do Haiti em 2010 também foi outro evento. Eu cheguei lá poucos dias depois do terremoto para fazer a cobertura, um país que tinha acabado de ser devastado. São esses exemplos que eu lembro, mas posso falar um monte. Eu fiz a campanha presidencial do Fernando Henrique [Cardoso] pra cá. Todas as campanhas são complicadas. Todas as coberturas para o fotojornalista depende da habilidade dele de fragmentar o tempo para transformar aquele pedaço de tempo em algo que seja significativo, tenha informação visual e de notícia para o leitor. Não é todo mundo que consegue se manter em pé sob tanta pressão.



*Estudantes da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2º Semestre/2015.


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