Aquela Rádio Sem Música

Ana Paula Sales Rosa*



      Foto: arquivo pessoal
Escutar o noticiário havia sido consagrado ritual inabalável. Por meras questões de saúde intelectual, é claro. O modesto hábito surgira com o meu eu de vividíssimos oito anos de vida, e apenas porque ouvira dizer que era um costume de pessoas inteligentes. E, ora, eu queria ser inteligente.
Pois bem. O primeiro passo foi equipar um orgulhoso sorriso, correr até o carro, e, na trajetória para a escola, encher a boca para falar apenas: “papai, liga o rádio naquela estação sem música?”.
O segundo passo foi sentir meu coração acelerar à medida que esperava meu pai me dirigir, pelo retrovisor, um olhar de orgulho ou pelo menos de surpresa. Pois bem. Essa foi minha primeira decepção. Ele apenas girou o botão do equipamento e manteve os olhos fixos na pista.
E o terceiro, bem... o terceiro foi a evidenciação de minha evidente estagnação mental perante tantas informações, digamos, um tanto adultas.
O que eu escutava pareciam apenas sílabas desconexas aos meus ouvidos, embora fossem muito bem pronunciadas por uma voz forte e ininterrupta, com um quê de arrogância. Esforcei-me mais um pouco. Talvez só não estivesse prestando a atenção devida. Bom, acontece que esse não era o problema. Nada daquilo fazia sentido mesmo. Não para alguém que vivenciara, de forma majoritariamente inconsciente, apenas oito anos de fatos. Essa foi minha segunda decepção.
O hábito, porém, se manteve. E, em algum momento ao longo dos anos, consegui ver-me realmente interessada pelo que escutava. E, para minha surpresa, consegui, de forma inconsciente, aprender aquela linguagem um tanto diferente, e até mesmo pronunciar seus termos enfeitados. Acabei por descobrir-me tão interessada por aquele idioma que agora descrevo, em palavras descomplicadas, a razão pela qual a vida de jornalista é a vida que eu quero ter.


*Estudante da disciplina Introdução ao Jornalismo, Faculdade de Comunicação, UnB, 2/2015.






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